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AFaGHo
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Apoio
a Familiares e Grupos de Homossexuais
by Dra. Ana Maria Ribeiro |
| O AFaGHo foi formado em Campinas, em 2002, como um suporte para pais e mães que são pegos de surpresa pela orientação sexual diversa do filho ou da filha. Através dessa coluna, a Dra. Ana Maria Ribeiro - ela própria mãe de um e-jovem - irá responder dúvidas sobre como esses pais podem lidar com seus filhos e vice-versa - como a galerinha e-jovem pode lidar com seus pais, para uma convivência sem obstáculos. O AFaGHo também promove reuniões de pais e familiares em Campinas e presta assessoria terapêutica individual e a grupos de homossexuais, como o Grupo E-jovem. Dúvidas, comentários e sugestões devem ser enviadas para afagho@e-jovem.com |
| Contar
ou não contar?
Além de outras dúvidas que cercam a geração e-jovem, parece-me que esta é uma das mais cruciais: contar ou não contar quem somos? A quem contar primeiro? Reunir a família inteira ou começar pela mãe? E se primeiro falar para aquela irmã mais amiga? E para quem não tem irmãos? Conta-se para a família maior (primos, tios, avós) ou apenas para os mais próximos? E quanto aos amigos? Pode parecer uma questão simples para quem não tem que enfrentar tal dilema, mas não é. Tanto que muitos jovens vivem vidas duplas, mentindo, mascarando-se, disfarçando sua verdadeira identidade. E o trabalho que isto dá... Quando a gente é criança e um dentinho cai podemos correr para a mãe e dizer sem medo, “mãe, meu dente caiu!” e mostrar o sorrisinho banguela com qual vamos brindar a todos nos próximos meses até que tenhamos um novo dente. Também não é difícil falar de outras dores, de outras preocupações de pesadelos – você um dia vai morrer? E eu vou morrer? Pra onde o vovô foi quando morreu? Na medida em que vamos crescendo vai ficando mais difícil falar o que se sente, mostrar o que se é. Nosso espelho é o olhar do outro e se suspeitamos que pode haver não aceitação ou mesmo horror neste olhar não queremos arriscar. E vamos aprendendo a difícil e comum arte da representação. Mentimos aos nossos pais, irmãos, amigos e muitas vezes esse hábito vai nos engolindo e mentimos a nós mesmos... E nos perdemos inteiramente sem saber direito o que somos ou no que nos tornamos. No nosso trabalho com jovens de orientação sexual diferenciada, atrás de toda a fala que transmite a necessidade de ir adiando indefinidamente “o contar” percebemos o mesmo sentimento: medo De não ser aceito, de ser expulso de casa, de ser apontado no colégio, de servir de chacota nas ruas, de ter seus amigos afastados, de ser destruído... Medo do espelho ser quebrado... De não poder mais se olhar, se reconhecer. Como, se o espelho não existe mais? E não podemos deixar de falar que algumas dessas situações realmente acontecem e infelizmente até todas essas situações podem ocorrer com apenas uma pessoa. Azar? Destino? Porque em algumas famílias a aceitação de uma revelação como esta é mais tranqüila e em outras é uma tragédia? O que diferencia estas famílias? E qual a melhor opção para o momento certo? Existiria um momento adequado para se contar o que se é? Numa reportagem de uma dessas revistas de grande circulação, a mãe de um muito jovem Lama budista brasileiro, revelou que quando soube que seu filho fora escolhido como Lama teve muita dificuldade em aceitar porque imaginara para ele um futuro com uma família, filhos – que seriam seus netos, uma profissão comum etc. Percebem alguma semelhança com nosso tema? Por outro lado, nunca presenciamos alguém se apresentar dizendo, “muito prazer, sou João, gay, engenheiro”. Ou “sou Maria, promiscua, professora”.Assim como, nunca falamos de nossos filhos coisas como, “é minha caçula já dormiu com 12 homens e anda infeliz, obrigada...” ou “feliz, obrigada...” No máximo nos referimos a nossos filhos dizendo a idade, se são solteiros ou casados... Raramente comentamos com quem... E porque falamos apenas isso, ou não falamos nada, ou falamos outra coisa qualquer? Porque temos LIBERDADE de contar o que quisermos... Ah! Então é esta a palavra chave LIBERDADE. É por isso então o motivo de luta das minorias, dos diferentes: LIBERDADE. Liberdade de sair, de amar, de beijar, de ficar, liberdade de ser. Liberdade de VIVER! Por isso tantos se sentiam vivos na parada, por isso procuram os lugares certos para se reunir, para poder ser uma família! Liberdade de escolha! Parece óbvio mas não é. Muitas pessoas ainda não perceberam que podem escolher. Escolher o que sentir... No momento em que alguém nos xinga, posso escolher ficar enfurecida ou rir... Se alguém nos provoca para uma briga que é dele, podemos escolher entrar na briga ou reconhecer que não é nossa e simplesmente virar as costas e sair. Escolher o que cada reação do outro vai fazer conosco. Se vamos escolher que nos destrua ou que passe por nós. Sempre podemos escolher com que sentimento vamos reagir a qualquer situação. E quando essa questão tem a ver com a família, com as pessoas que amamos? Na verdade não existe uma receita única. Faça isto ou aquilo. Isto é melhor ou não. Mas uma coisa tem que ficar clara: quanto mais cedo melhor... Quanto menos mentiras, menos expectativas dos pais, menos sofrimentos. A Liberdade, fundamento de todo valor humano, é o único fim capaz de justificar as ações da humanidade. E tomando emprestado o pensamento de Jean Paul Sartre, digo que quaisquer que sejam as circunstâncias possuímos no nosso interior uma liberdade que nos permite ultrapassá-la. Podemos ver nisso dois aspectos: onde ela já existe e onde precisa ser conquistada. E liberar a liberdade pode ser a luta de uma vida! Dra.
Ana Maria Ribeiro
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