AFaGHo
Apoio a Familiares e Grupos de Homossexuais

Dra. Ana Maria Ribeiro

 
O AFaGHo foi formado em Campinas, em 2002, como um suporte para pais e mães que são pegos de surpresa pela orientação sexual diversa do filho ou da filha. Através dessa coluna, a Dra. Ana Maria Ribeiro  - ela própria mãe de um e-jovem - irá responder dúvidas sobre como esses pais podem lidar com seus filhos e vice-versa - como a galerinha e-jovem pode lidar com seus pais, para uma convivência sem obstáculos. O AFaGHo também promove reuniões de pais e familiares em Campinas e presta assessoria terapêutica individual e a grupos de homossexuais, como o Grupo E-jovem. Dúvidas, comentários e sugestões devem ser enviadas para afagho@e-jovem.com
 
Sobre suicídio

Tem sido criativa a forma como muitos meninos e meninas tem abordado seus pais para se revelarem homossexuais.

A última que soube, meio trágica, foi funcional. Então vale. Um menino chega e diz que precisa contar algo de muito sério para a família toda.  Reúne a todos, coloca um incenso carregado e uma musica da Enia. Faz suspense.  Sente a tensão e a ansiedade crescerem na sala. Diz aos balbucios que tem uma revelação que mudará a vida de todos em relação a ele. Todos esperam. A tensão pode ser cortada com uma faca. A mãe já quase não agüenta mais, o pai já começa a dar ares de impaciência. Conta longo!

Ele olha um por um dos membros da família e diz: "Soube que tenho um tumor no cérebro inoperável e maligno. Tenho poucos meses de vida." A mãe dá um urro. “Meu filhinho...” O pai não consegue articular nada, fica calado, imóvel, mal se consegue perceber sua respiração. Os irmãos se olham e as meninas já tem os olhos cheios dágua. Há silêncio na sala. O pai finalmente pergunta num fiozinho de voz se não existe nada que possam tentar. Nada, responde o menino/ator. Outro silêncio maior. O mal-estar é geral, todos demonstram que gostariam de estar a quilômetros dali. Menos a mãe que geme como um cãozinho que acabou de perder uma perna. Neste momento o menino dispara. "Na verdade fiz uma metáfora... não tenho tumor nenhum. Mas sou gay."

O alívio que perpassa a todos é evidente. Ele continua: "Mas posso ter pouco tempo de vida com vocês se não me aceitarem e transformarem minha vida num inferno."

A mãe salta então da cadeira e abraça o menino... O pai não pode se impedir de se sentir muito aliviado... E todos os irmãos dão tapinhas nos ombros do peralta. Apenas uma das irmãs dispara: "E eu já me programando para ficar com o seu quarto..." O riso que provoca quebra por fim toda a tensão existente e deixa surgir o amor...

É uma forma criativa de mostrar que existem coisas piores que ter uma orientação sexual diferenciada.  Mas é evidente que para funcionar é necessário que exista amor...

Agora que meninos e meninas já demonstram que o melhor é falar, contar, revelarem-se, sinto que temos que discutir mais as formas dessa revelação. Vai ser importante para aceitação de ambos os lados da questão.

Gostaria até de pedir que aqueles que usaram formas semelhantes escrevessem contando. Podem ajudar a outros.

Infelizmente isto não é a regra. Existem formas muito traumáticas de se descobrir que aquele filho, filha, marido, esposa, mãe, pai, sobrinho, afilhada, não se interessam em dividir sua vida afetivo/sexual com pessoas de sexo diferente, preferindo permanecer no seu mesmo grupo sexual. Parece-me que uma das piores seja o flagrante. Por mais que se fale sobre todas essas questões, não deve ser muito agradável um filho descobrir seu pai e o amigo deste na cama. Ou a mulher surpreender o marido com outro homem. Veja que não seria agradável mesmo que fosse com uma mulher. Mas me parece que o fato de ser do mesmo sexo piora o sentimento de traição e rejeição que as mulheres experimentam nestes momentos. Quanto aos pais que surpreendem seus filhos, durante nosso trabalho de suporte aos pais, nas reuniões da AFAGHO, sentimos um turbilhão de sentimentos e ressentimentos. Estes sentimentos tornam mais difícil a tarefa de lidar com o problema. O que estamos querendo demonstrar é que existem inúmeras formas de se conhecer essa realidade do nosso parente e inúmeras ainda de se lidar com isso. O jeito como os implicados vão administrar, iré dar o tom do caminho que a relação passa a trilhar.

O que se precisa evitar, de todas as maneiras possíveis é passar para o outro a impressão de que a vida dele não tem mais importância.

Tenho uma amiga antiga, cujo filho não só se matou como preparou tudo para que fosse a mãe a primeira a encontrá-lo, que me deu a seguinte declaração: "A dor é diária, não muda muito. Só vai terminar quando eu também morrer”. E esta mesma mãe, quando seu menino anunciava que iria se matar porque se sentia mal, inadequado e tinha uma vida que não conseguia mais suportar, respondia que: “Ora bolas! Se você se matar serei a mãe de um suicida. Assim como sou a mãe de alguém que está infeliz, insatisfeito. O que posso fazer?”

Será que não se pode mesmo fazer nada quando alguém resolve morrer?

Mesmo considerando que cada caso é um caso, existem suicidios cujo gatilho são questões intransponíveis, como aqueles que já começam a ganhar o nome de eutanásia assistida. E outros com as mais diversas motivações. Mas o que dizer do suicídio de um menino de 17 anos, motivado pela impossibilidade de administrar o que imagina que vai acontecer na sua família se revelar sua homossexualidade? Não se sabe nem se ele teria razão. Se a família realmente reagiria com raiva e rejeição absoluta ou violência física. Não é um suicídio reativo. É um suicídio por angústia.

Implica em muito sofrimento antes da tragédia, muita solidão para aquele que não viu saída. Que se viu no final da linha; sem outra porta possível… É homicídio social, quero dizer, motivada pela sociedade a qual a pessoa pertence. E uma reação desesperada a uma cultura que não comporta espaço para todos os seus membros serem felizes e satisfeitos. Nós somos os assassinos. Nós estamos matando essas pessoas.

Dra. Ana Maria Ribeiro
é Antropóloga Clínica e mãe de gay.



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