AFaGHo
Apoio a Familiares e 
Grupos de Homossexuais

Dra. Ana Maria Ribeiro


 
Meninos Perdidos 

Recentemente, num artigo para o jornal "O Liberal" de Americana-sp, o jornalista e militante do e-jovem, Deco Ribeiro escreveu sobre a facilidade que seria se os gays nascessem rosa.  Todos os pais saberiam assim que vissem seus bebês que estes seriam gays, assim como um efetivo gênero diferente. Todos na sociedade a partir da escola, vizinhança, etc., saberiam.  Deco Ribeiro disse que isto seria um facilitador na vida desses meninos. Hoje so existem dois gêneros oficiais, masculinos e femininos ao nascer.  A orientação sexual deles quando adultos só o tempo dirá. É sobre essa invisibilidade que só se revela no amor que gostaria de discutir. 

É sabido que a sociedade ocidental prima por tornar invisível o que não gosta, o que quer excluir. Étnicamente faz isso com a população negra, asiática ou arábe em situações de contato por imigração.  Nos casos dos meninos gays a diferença está dentro como uma verdade guardada, escondida. Fora, aparente, apenas o gênero comum, aceito. Se essa verdade guardada, se revelasse apenas em situações extremamente íntimas como um pênis muito grande ou um clitóris muito pequeno, talvez não causasse tanto trauma. Mas, além de ser revelada no amor, se liga aos jogos de acasalamento dos jovens e termina aparecendo socialmente. Quer dizer que os jovens querem acasalar - mesmo que não posssam gerar filhos. 

Acasalar sem gerar filhos, a familia só permitiu há menos de 50 anos, com a chegada dos 
anticoncepcionais. As religiões ocidentais até hoje não permitem. (O que não quer dizer que sejam necessariamente obedecidas). A Igreja Católica, não permite nenhum uso de anticoncepcional, nem aborto. Que venham quantos filhos "Deus" quiser enviar. (Embora não discutam a superpopulação mundial e as crianças extremamente pobres que moram nas ruas). As evangélicas, acreditando no Satanás em igual medida que no deus bíblico,atribuem ao diabo qualquer sentimento e produção diferente - o que vai do amor pelas pessoas do 
mesmo sexo aos episódios do nascimento de crianças com malformação congênita. Tudo que é diferente é obra do diabo. Sendo assim, é muito fácil que eles acreditem que seus filhos e filhas homossexualis estão, na verdade, possuídos. E que podem ser "liberados". A sociedade como extensão da família no imaginário social aceita esta invisibilidade e finge que não a reconhece quando usufrui dos lucros financeiros gerados pelo estilo de vida dos gays bem sucedidos na vida. 

A luta dos militantes é forçar essa visibilidade. É uma batalha dura porque tem duas frentes: a sociedade como um todo e os próprios gays. Mas os gays não pagam impostos, não consumem, não fazem turismo? Sim, fazem. Mas são invisíveis por que só mostram a mentira de serem apenas companheiros. E a sociedade não intui que são amantes? Sim. Mas fingem que não. E na familia? Será que não há um saber escondido dentro dessa mãe e desse pai em relação a seu menino gay? Será que não é por isso que eles pressionam tanto? Como aquele dente doído que a gente fica futucando? 

E os meninos negando tudo. Dentro dos armários. E para usar bem esta metáfora, o que acontece quando os armarios ficam cada vez maiores, mais profundo e mais escuros, escondendo a porta de saida? Pulam por qualquer janela, mesmo que seja a da morte. Afinal, as crianças sempre tiveram medo do escuro. 

Dra. Ana Maria Ribeiro
é Antropóloga Clínica e mãe de gay.



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