Heliópolis,
a maior favela de São Paulo, tem o tamanho de uma cidade de porte
médio: 120 mil habitantes. E um anjo da guarda que, como seus
colegas celestiais, não tem
sexo. Pelo menos definido. Nascido Geronino Barbosa de Souza, aos 35 anos
ele(a) é conhecido(a) como Gerô. Mais ou menos metade da comunidade
atribui o artigo definido "o" para designá-lo, a outra metade o
artigo "a", incorporando o que, para esse anjo da guarda singular, é
sua melhor definição: a indefinição. Gerô
é transformista, drag queen, alguém que nasce homem, mantém
o corpo masculino, mas se veste como mulher. E, no caso dele(a), namora
rapazes, de preferência bem bonitos. "Não
preciso de definições", diz. "Só de dignidade."
Definido esse ponto, é preciso
explicar que Gerô é chamado(a) para solucionar os mais variados
problemas. Nisso, se aproxima mais de um Santo Expedito. Uma mulher resolveu
parir na madrugada? Gerô. O garoto não tem vaga na escola?
Gerô. O marido brigou com a mulher? Gerô. Uma velhinha não
consegue aposentadoria? Gerô. Outra sofreu um acidente e está
passando fome? Gerô. "Tudo quanto é caso do povo é
Gerô, todo mundo se agarra com ele", diz Antônia Bispa de Sá,
de 70 anos. Ele? "Ora, não sei. O que eu entendo é que homem
inteiro é ciumento, mulherengo e bêbado. Gerô é
essa maravilha que Deus botou na nossa Heliópolis."
A principal
obra do anjo da guarda de Heliópolis, segundo o(a) próprio(a)
Gerô, foi tirar todos os homossexuais do armário.
E, de lá para cá, impedir que eles tenham relações
sexuais sem preservativo ou se entreguem a qualquer aventureiro. As palestras
de prevenção acontecem nos fins de semana, de preferência
acompanhadas por um "feijão bem forte". Gerô cozinha bem.
"Eu nem sabia o que era preservativo antes de conhecer a Gerô. Ela
nos ensinou a ter respeito pelo corpo", diz Silas dos Santos, de 18 anos,
cujo irmão morreu no tráfico. "Se não fosse ela, teríamos
de continuar escondendo que somos gays para não levar pancada."
O trabalho de prevenção
é estendido também aos adolescentes heterossexuais. "Vou
dizer uma coisa a você. Se minha menina chegou aos 18 anos sem uns
dois filhos sem pai, aqui, neste lugar em que a gente vive, eu devo isso
ao Gerô", diz a dona de casa Elis Regina Rosa, de 36 anos, mãe
de cinco filhos. "Na minha casa, só o pai tem mais autoridade que
Gerô para ensinar o que é certo."
"O bem que
eu faço me faz o que eu sou. Eu não sabia quem eu era quando
só pensava em mim. Não tinha um ideal. Fazer o bem para a
comunidade me deu identidade" - Gerô
Gerô só descobriu que
era homossexual em São Paulo. "Eu sempre soube o que era, mas lá
no interior de Minas, onde eu nasci, na roça, o nome correto era
veadinho", diz. "Eu não tinha nenhum drama, não. Na roça
de feijão, aos 8 anos, acreditava piamente que, quando crescesse,
ia virar mulher e casar com um primo, de véu e grinalda." Gerô
conta que, aos 11 anos, fugiu com uma família vizinha para a cidade
mais próxima e tornou-se uma espécie de doméstica.
Descobriu a televisão e, principalmente, uma novela que se passava
em São Paulo. "Os meninos estudavam, moravam em casas bonitas, tinham
tudo do bom e do melhor", diz. "Decidi que precisava ir para São
Paulo para ter aquela vida."
Bem que tentou convencer uma tia
a carregá-lo(a) para a capital paulista. Não conseguiu. Enquanto
a família se despedia na calçada, Gerô entrou no ônibus,
tentou se enfiar debaixo de uma poltrona e, como não coube, se escondeu
no banheiro. O motorista só foi descobrir dez horas mais tarde,
depois de arrombar a porta a pontapés. Sentado no vaso, chorando,
o(a) passageiro(a) clandestino(a) tremia de frio e de fome. Gerô
tinha 15 anos e pode não ter chegado a São Paulo em grande
estilo, mas chegou. E assim soube que chegaria aonde quisesse, do seu jeito
muito particular.
Quando desembarcou em Heliópolis
e ouviu o som do forró, 20 anos atrás, Gerô soube que
havia encontrado seu lugar no mundo. Imediatamente tratou de tirar RG e
carteira de trabalho ali mesmo. "Era o paraíso. Um lugar animado,
movimentado, cheio de gente", diz. Quando os donos de Heliópolis,
ainda em fase de ocupação, avistaram Gerô, pensaram
o oposto. Trataram de manifestar seu ponto de vista na linguagem direta
de um 38 apontado para ele(a): "A gente não quer saber de veado
aqui".
Gerô conta que fugiu deles
por mais de ano, escapando pelos becos e barracos. Numa das fugas, saltou
de uma altura de quase dois andares e quebrou uma perna. Mas ficou. Quem
partiu foram os grileiros urbanos. Heliópolis começava a
se organizar, e Gerô com ela. Hoje ele(a) comanda a rádio
comunitária e faz parte da direção da Unas, entidade
que reúne todas as associações de Heliópolis.
Abandonou as faxinas e seu melhor emprego, auxiliar de farmácia.
Vive com uma pequena ajuda de custo da entidade. Neste ano, se forma em
Jornalismo, justamente ele(a) que entrou para a escola aos 13 anos. Gerô
ainda enxerga aquela favela larga de ruelas estreitas, aquele mundo de
concreto e nenhuma árvore, como um paraíso. "Paraíso
é onde a gente tem lugar e identidade. Onde te chamam pelo nome.
Fora de Heliópolis me sinto um nada", diz.
Foi com
um tiro que Gerô acordou. Até aquele "barulho com
gosto de sangue", só queria trazer a família para São
Paulo e cuidar da própria vida, como tantos. "Ouvi um tiro na sala
de aula. Era um menino que estava fazendo bagunça e a professora
mandou sair. Em vez disso, ele atirou. Tem a marca da bala na parede",
diz. "Comecei a pensar nos porquês. Achei que, se ele tivesse uma
bola para jogar na quadra, se tivesse lazer, ele não atiraria."
Gerô mudou a escola, inventou campeonatos, organizou formaturas.
Tudo porque não suportaria ouvir um segundo tiro.
Começou a se tornar o anjo
da guarda de Heliópolis. E, quanto mais asas criava, mais Gerô
se indefinia. Primeiro, começou a aparecer com umas calças
cor-de-rosa, umas miniblusas. Deixou o cabelo crescer. E, num fim de semana
do final dos anos 90, aconteceu. Deixou o lar de dois cômodos, 6
metros por 3 no total, maquiadíssima, a bordo de uma minissaia,
bata e uma bota vermelha. Sobre saltos, enfrentou
a favela. Ouviu de tudo, é verdade. Mas venceu.
De lá para cá, é
assim. De segunda a sexta-feira Gerô é um anjo casual, de
tênis e camiseta, "bem simplesinha". No sábado e no domingo,
transforma-se num querubim do tipo profano. Ninguém estranha. "Gerô
tem o respeito da comunidade", diz Valteir Pereira, de 22 anos. Tem mesmo.
No início de agosto, um suposto traficante bateu numa transformista.
Gerô viu e revidou. O homem puxou um revólver. Gerô
disse: "Você pode me matar, mas você sabe o que eu represento
para esta comunidade". O homem guardou a arma. No dia seguinte,
Heliópolis inteira o caçava. O povo só sossegou quando
o colocou diante de Gerô. De cabeça baixa, ele pediu desculpas
à drag queen. Esse é um tipo de milagre que só anjos
de carne, osso e sutiã de enchimento são capazes de fazer.
(fonte: Revista Época)