Les Girls
 
 
 
"BoaTarde!!! Quero conversar porque já estou cansada de tentar entender. Tenho uma cunhadinha que é filha adotiva. Mora comigo! Ela diz que gosta de meninas, mas nunca teve jeito de lésbica, e já ficou com meninos!!! Ela tem 13 anos, e está impossível. Já não sabemos mais como agir! Você poderia me ajudar?"
~ Laressa, SP
 

Oi Laressa. 

Antes de tudo, nunca se canse de buscar informação. Questõescomo essa da sua cunhada sempre foram mantidas sob um manto de invisibilidade por décadas, na marginalidade, e só agora é que estamostendo oportunidades de saber mais como se forma a sexualidade de uma pessoa,de um adolescente. Ou seja, estamos tentando entender muita coisa juntocom os próprios jovens, compartilhando de suas dúvidas edescobertas. E isso não é ruim não, é muitobom. Pelo menos há esse diálogo, essa confiança. 

Quanto ao seu caso específico, lhe adianto que o fato dela seidentificar como lésbica já aos 13 anos e bater o péquanto a isso é bem expressivo. Pois uma coisa é ter a práticahomossexual, ficar com outras meninas, e outra é assumiruma identidade que carrega consigo TODO um contexto (histórico,cultural, etc). É preciso ter certa segurança para isso - e coragem. Não é algo para não ser levado àsério. Caso ela estivesse apenas experiemntando ainda, ela diriaque "curte ficar com meninas" ou que era "bi". O fato dela assumir o termo "lésbica" (que é um termo forte, difícil de ser aceito até mesmo para lésbicas mais velhas) é importante. 

Quanto à sua dúvida, referente a ela não ter jeito de lésbica e já ter ficado com meninos... É, bem-vinda aos tempos modernos. Antigamente, só as lésbicas mais explícitas eram visíveis - claro, elas não tinha opção, tinham? Eram masculinizadas, nunca haviam namorado homens, da suspeita à certeza era um pulo. As outras, no estilo da sua cunhada, permaneciam nas sombras, e vivendo na clandestinidade. Hoje em dia, como eu já disse, há um clima favorável a que esse comportamento se dê mais às claras - e "surgem" (na verdade sempre  houve, nós é que não víamos) lésbicas sem trejeitos e que já ficaram ou ficam com homens. Que posso lhe dizer, sem me estender demais: É normal. 

Ser lésbica não tem nada a ver com ser masculina ou feminina e também não tem nada a ver com ficar com homens ou mulheres, simplesmente. Essas características definem sua sexualidade sim, mas são ligadas a identidade sexual (me sinto feminina ou masculina?) e práticas sexuais (beijo homem ou beijo mulher ou beijo os dois?), não ao desejo sexual (gosto, sinto atração,desejo, vontade de ficar junto, casar e ter filhinhos com homem ou com mulher?). Percebe a diferença? É sutil, mas existe. 

Práticas sexuais são impostas pela sociedade desde o berço (o menino usa azul, a menina, rosa) e têm a ver com o que a sociedade espera de nós. Era esperado que sua cunhada beijasse garotos. Todas as suas amigas estavam beijando. Ela beijou - mesmo que sem vontade. Identidade sexual surge durante a infância: ela sempre se viu como menina e por isso nunca foi identificada como lésbica, que imaginamos ser mais masculinizada. Finalmente agora, aos 13 anos, atingindo a adolescência, veio o desejo. E, com ele, a certeza de que esse desejo é orientado (daí o termo orientação sexual) às meninas. Ela continua feminina como sempre foi e até pode ter se acostumado com uma prática de beijar meninos ocasionalmente - mas a pessoa com a qual ela se vê de pernas trançadas embaixo de um cobertor, numa noite fria, vendo tevê e dividindo uma bacia de pipoca é uma mulher. 

Quanto a entender... Bom, você entendia por que gostava de meninos quando tinha 13 anos? Você só sabia que gostava, né? E isso era natural, certo? Pra ela também é assim. 

Tente não julgá-la. Converse. Aprenda o que é serlésbica junto com ela (puberdade é uma fase, principalmente, de aprendizado). Adolescentes nessa fase e com esse tipo de experiências se sentem excluídos - demonstrar aceitação é importante. Tenho certeza que vocês duas (e seu marido) serão bem felizes. 

Qualquer coisa estamos aqui. 

Beijo do Deco
Deco Ribeiro é Fundador do Grupo E-jovem

P.S. Pais, existe um coletivo de pais e mães de jovens homossexuais, ligado ao Grupo E-jovem, com os quais vocês podem conversar melhor sobre seus filhos... é o AFAGHO - Apoio a Familiares e Grupos de Homossexuais. 



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