Governo
lança Conferência GLBT
A
1ª Conferência de Políticas Públicas para a população
GLBT foi lançada oficialmente hoje pelo Secretário Especial
de Direitos Humanos, Paulo Vanucchi, que confirmou sua realização
nos dias 6, 7 e 8 de junho deste ano. O lançamento contou com forte
presente da Juventude GLBT, que estava em Brasília participando
da Conferência da Juventude.
A Juventude GLBT presente na cerimônia,
com gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais de vários
estados, ocupou o Salão Negro do Ministério da Justiça,
antes da cerimônia, com seus gritos de guerra e levantando suas bandeiras,
de combate ä homofobia na escola e por mais segurança pública.
“É muito bom ver os ministros todos juntos, lutando contra a homofobia,”
afirmou Leonardo Henrique dos Santos, presidente do GRADELOS, grupo de
jovens negros GLBT de Cuiabá (MT).
“É
realmente um momento histórico,” celebrou Deco Ribeiro, presidente
do E-JOVEM, grupo membro do CONJUVE e da Comissão Organizadora da
Conferência GLBT. “Esse compromisso do governo com a Conferência
mostra a disposição de fortalecer o programa Brasil Sem Homofobia
e criar um Plano Nacional de Políticas Públicas para a população
GLBT”.
Em seu discurso, o ministro Paulo
Vanuci destacou como inadmissível que um homossexual seja assassinado
a cada três dias no Brasil, por causa da homofobia. E que nenhuma
democracia seria completa sem dar a devida atenção à
comunidade GLBT.
O Ministro da Justiça, Tarso
Genro, e a Ministra do Turismo, Marta Suplicy, ecoaram as palavras do Secretário
Vanucci. “Essa Conferência servirá para educar a sociedade
quanto aos direitos da população de gays, lésbicas,
bissexuais, travestis e transexuais,” afirmou Genro. Para Marta Suplicy,
aliada da luta GLBT há 28 anos, é importante que o país
se mostre como um país gay friendly (amigo dos gays) para incentivar
a vinda de turistas GLBTs, que viajam muito mais que heterossexuais.
A cerimônia contou ainda com
as presenças do Ministro da Igualdade Racial, Edson Santos e da
Secretaria de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire,
além de diversos deputados e senadores. Ah, e destaque para a bandeira
arco-íris do E-JOVEM, que é aquela ali da foto, no
púlpito de onde as autoridades falaram. Chique de doer! =D
Escola
está despreparada para lidar com a homossexualidade
Apesar
dos jovens tornarem pública a orientação sexual cada
vez mais cedo, não existe política específica para
conduzir situação
‘Laura’
e Robson contam situações constrangedoras e cobram orientação
aos alunos
ALECY ALVES
Diário de Cuiabá
Jovens homossexuais vêm revelando
a orientação sexual cada vez mais cedo nos meios em que
convivem, sobretudo na escola. Porém,
em Cuiabá, nenhuma política específica para o trato
com a
nova realidade é desenvolvida
em unidades públicas estaduais e municipais. Nas secretarias
Estadual (Seduc) e municipal (SME)
não há qualquer ação voltada para esse público
e a forma
como conduzir e tomar a iniciativa
para abordar o tema fica a cargo apenas das escolas
individualmente.
Homossexual assumido, Robson, 18
anos, que fora da escola assume o pseudônimo de “Raíssa”,
diz
que sente falta de alguma atividade
que possa ajudar os demais alunos a entender e respeitar a
homossexualidade.
Aluno do segundo ano do ensino médio,
Robson às vezes se sente constrangido com as brincadeiras
e atitudes de alguns colegas de
escola. As piadinhas sobre gays e as tentativas de agarrá-lo
para beijá-lo estão
entre as ocorrências que mais o constrangem. “Laura Pinck”, como
gosta de
ser identificado o colega de sala
de Robson, reclama principalmente do uso do banheiro. Como
não pode freqüentar
o feminino, “Laura” diz que sente uma certa hostilidade quando entra no
banheiro dos rapazes.
“Os garotos tentam se esconder, fecham
a cara como se estivéssemos ali para atacá-los”,
lamentam. Sobre os professores,
eles não têm queixas. “Nos tratam com naturalidade, da mesma
forma como fazem com os demais alunos”,
avaliam.
Aos 30 anos, “Laura” não esconde
sua orientação sexual. Vai à escola usando calça
jeans
feminina, colar e pulseiras na cor
rosa, camiseta modelo baby look. Tanto Robson como “Laura”
conta que desde criança,
aos 10 anos, andava e tinha gostos semelhantes aos das meninas.
Filho de militar, Robson diz que
por causa da educação rígida foi difícil se
aceitar como
homossexual. “Cheguei a pedir ajuda
na igreja, mas nada me fez mudar”, confidencia. O irmão
gêmeo dele também é
homossexual.
“Laura” não diz não
ter tido problemas com a família, seus pais o aceitaram naturalmente.
Hoje,
ele é o responsável
pelos afazeres domésticos da casa e os cuidados com o pai que está
muito
doente.
Ambos estudam na Escola Estadual
Presidente Médici, uma das maiores do Estado, com mais de 4
mil alunos. De acordo com o diretor,
Anísio Guimarães, o colégio tem dezenas de alunos
homossexuais e não registra
nenhum conflito entre esses estudantes e professores ou com outros
alunos.
Ano passado, segundo Guimarães,
o único problema foi a tentativa dos homossexuais masculinos de
freqüentar o banheiros das
alunas. “Não podemos aceitar isso e nem que venham travestidos de
mulher, ou no caso das mulheres,
gays travestidas de homem”, observa.
No Colégio Médici existe
o Serviço de Orientação Educacional (SOE), um setor
que atende as
situações emergenciais
que vão desde saúde às brigas. O diretor Anísio
Guimarães não sente a
necessidade de ajuda formal da Seduc
no que se refere à homossexualidade porque, segundo ele, a
própria escola vem conseguindo
administrar a questão.
O diretor da Escola Estadual Nilo
Povoas, Wilton Carvalho, diz que pensa diferente. Carvalho
acha que a Secretaria deveria debater
o tema com os professores e alunos. O diretor conta que,
este ano, com menos de um mês
de aula, ainda não identificou nenhum aluno homossexual ou
enfrentou divergências de
orientação sexual.
Ano passado, entretanto, a escola
teve de intervir em brigas entre casais de homossexuais e
entre homossexuais e alunos heterossexuais.
Na ocasião, observa, a escola tinha no quadro de
funcionários uma pessoa capacitada
para a abordagem e orientação dos alunos, servidora que a
Seduc acabou levando para cargo
administrativo da própria Secretaria.
(fonte: http://www.diariodecuiaba.com.br/detalhe.php?cod=311217)
Entrevista:
“O homossexual ainda não é aceito no Brasil”
RODOLFO BORGES
Da Secretaria de Comunicação
da UnB
No começo deste ano, a Secretaria
de Justiça do Estado de São Paulo aplicou, pela primeira
vez, sua lei estadual contra homofobia, criada em 2002. No dia 15 de janeiro,
o técnico de laboratório Juliano da Silva, de 27 anos, foi
multado em R$ 14,8 mil por ter xingado e agredido o industrial Justo Favaretto
em novembro de 2006. De acordo com o processo, Silva atirou uma lata de
cerveja contra Favaretto, deu um tapa em seu rosto e o chamou de “veado”.
Mais ou menos um mês depois,
precisamente no último dia 12, o presidente da associação
que organiza a Parada Gay de São Paulo foi amarrado, agredido e
ofendido durante um assalto à sede da entidade. A ação
foi interpretada por alguns líderes de representações
gays como um crime de intolerância e, junto com a multa aplicada
em São Paulo, trouxe à tona, mais uma vez, a discussão
sobre a condição dos homossexuais na sociedade brasileira.
“Existe
uma impressão de que as coisas estão mudando em todo o país,
de que há mais aceitação, mas ela é falsa”,
alerta o psicólogo Roberto Menezes de Oliveira. Doutor em Psicologia
pela Universidade de Brasília (UnB), Oliveira acredita que essa
situação só vai mudar quando uma parcela maior da
população tiver acesso à educação formal.
“Tudo se resume a uma questão de escolaridade. As pessoas mais cultas,
que tiveram mais acesso à educação, tendem a ser mais
flexíveis”, considera Oliveira, que é professor da Universidade
Católica de Brasília (UCB).
Na entrevista abaixo, o psicólogo
chama a atenção para a negligência da sociedade brasileira
e dos grupos gays em relação aos homossexuais idosos, diz
que a religião é utilizada como argumento contrário
à homossexualidade por pessoas que se incomodam com a diferença
e defende que a criação de crianças por pais gays
é tão boa quanto a feita por heterossexuais. “O que define
um bom pai e uma boa mãe não é a sua orientação
sexual”, garante.
UnB AGÊNCIA – Lidar com
a homossexualidade, hoje, é mais fácil para o homossexual?
OLIVEIRA – Depende. Se o homossexual
percebe sua condição em São Paulo, Brasília,
Belo Horizonte, Rio de Janeiro ou em qualquer outra grande cidade, ele
terá um tratamento diferente de quem se percebe homossexual em Mombaça,
lá no interior do Ceará. A diferença é imensa.
Existe uma impressão de que as coisas estão mudando em todo
o país, de que há mais aceitação, mas ela é
falsa. Tudo se resume a uma questão de escolaridade. As pessoas
mais cultas, que tiveram mais acesso à educação, tendem
a ser mais flexíveis. E, ainda assim, estão longe de um patamar
de aceitação. Elas apenas aumentam o patamar da tolerância,
e isso é bem diferente. Uma coisa é ser aceito, outra é
ser tolerado.
UnB AGÊNCIA – Uma pesquisa
de comportamento mundial feita recentemente pelo Pew Research Center, dos
Estados Unidos, mostrou que 65% dos brasileiros acham que a homossexualidade
deve ser aceita. A taxa de rejeição aos homossexuais no Brasil
seria de apenas 30% (a quinta menor do mundo). Contudo, os autores do estudo
ressalvam que a pesquisa foi realizada apenas em áreas urbanas.
OLIVEIRA – Isso é crucial.
Quem compõe esses 65%? Existem, no mínimo, dois “brasis”.
Um escolarizado e urbano, e um interiorano e sem educação
formal. Quando o homossexual percebe sua condição na cidade,
ele tem pares para conversar. No interior, isso é muito difícil.
Além disso, uma coisa é a pessoa afirmar que aceita a homossexualidade.
Agora, experimente perguntar se ela compartilharia um chuveiro de academia
com um colega homossexual. A resposta pode mudar.
UnB AGÊNCIA – Então
ainda não se pode falar em aceitação da homossexualidade
no Brasil?
OLIVEIRA – Não. Confunde-se
muito visibilidade com aceitação. Os grupos de homossexuais,
bissexuais e transgêneros se organizaram em uma militância,
e forçam uma visibilidade, buscando essa aceitação.
Mas quando alguém promove um “beijaço”, não quer dizer
que as pessoas estão consentindo. Muitos estão virando as
costas ou xingando. A visibilidade do “beijaço” é confundida
com a idéia de que as pessoas estão mais abertas. Mas esse
tipo de manifestação é apenas um caminho que está
se trilhando. Em termos estatísticos, só se pode falar em
tolerância. A melhor prova de aceitação é não
tematizar a questão sexual. Ninguém chega para um heterossexual
e pergunta como vai a questão sexual dele.
UnB AGÊNCIA – O senhor enxerga
boas perspectivas nesse sentido?
OLIVEIRA – Eu sou otimista. Para
concorrer no mercado globalizado, o Brasil tem de educar a população,
e, junto com essa educação, vem a maior tolerância
com o diferente. E o movimento não pára. É um desafio,
principalmente para quem já tem acesso à cultura, à
educação e à informação. Os meios de
comunicação ainda passam uma visão estereotipada dos
gays em novelas e programas humorísticos. É aquela visão
da “bicha”, que faz parte de um arcaísmo da mentalidade brasileira.
Só que agora eles também mostram uma representação
moderna, quando divulgam as paradas gays, por exemplo.
UnB AGÊNCIA – Manifestações
como paradas gay não reforçam alguns desses estereótipos?
OLIVEIRA – Essas manifestações
têm aspectos positivos e negativos. De fato, nem todo homossexual
é daquele jeito ou vai para cima de carro de som, de sunga, rebolar.
Nem todos têm corpo, mentalidade ou desejo para isso. Assim como
na heterossexualidade, existe uma diversidade de tipos na homossexualidade.
Mas as pessoas querem pegar o sujeito e colocá-lo em uma das representações.
Quando se fala em homossexual, as pessoas menos educadas pensam no “viadinho”,
na “bichinha”, e confundem com travesti. Os mais educados, com nível
superior, vão pensar naquele homossexual que cuida do corpo, que
freqüenta boates. Mas existe o homossexual cidadão comum, que
não demonstra sua sexualidade e nem quer. Há muitos homossexuais
que não se reconhecem na parada gay. Não é que eles
sejam contra o movimento político, mas ele não vai porque
não se vê representado.
UnB AGÊNCIA – Mas os próprios
movimentos indicam uma unificação dos gays em um grupo à
parte.
OLIVEIRA – Sim. Eles tentam diversificar,
mas não conseguem. Muitos homossexuais ficam de fora. Onde está
o homossexual idoso? Eu não os vejo nas paradas gays nem nos
noticiários. Ele só aparece como a “tia velha”, se for afetado,
e não como um idoso com experiência de vida.
UnB AGÊNCIA – Por que não
se fala dos homossexuais idosos?
OLIVEIRA – Ninguém gosta
da velhice, hetero ou homo. Essas pessoas desaparecem. As pessoas não
querem conviver com o idoso porque a velhice no Brasil ainda é algo
de asilo, está associada apenas às perdas. Ninguém
pensa na sabedoria, na experiência de vida que essa pessoa pode passar
aos outros. Logo, não se cria instrumentos para que essas pessoas
ajudem os mais jovens. A representação é de decrepitude.
Para o idoso homossexual, é ainda pior. Uma vez eu estava em uma
videolocadora e um senhor bem velhinho entrou naquela parte privada, de
filmes pornô. Quando viu a cena, uma das atendentes falou para a
outra: “olha que velho safado”. E a outra respondeu: “e ainda por cima
é viado, porque pega filmes de gay”. Quer dizer, ele é discriminado
por ser velho e homossexual.
UnB AGÊNCIA – A associação
de homossexuais alemã Village inaugurou, em janeiro, o primeiro
asilo para idosos gays da Europa. Segundo os criadores, a medida foi tomada
para evitar discriminação no fim da vida. Separar os homossexuais
do convívio com heterossexuais ajuda ou atrapalha?
OLIVEIRA – Atrapalha. Todo tipo
de isolamento atrapalha. É diferente de cinco idosos gays que se
reúnem para morar em uma chácara, porque eles continuam tendo
uma rede social que os livra do isolamento. No caso de um asilo, em vez
de isolar os idosos, o ideal seria trabalhar a equipe da instituição
para aceitar ou, pelo menos, tolerar as diferenças.
UnB AGÊNCIA – Em todo o
mundo, grupos religiosos prometem “reabilitar” homossexuais. E, de fato,
membros desses grupos costumam dar depoimentos sobre a cura pela religião.
Existem ex-gays?
OLIVEIRA – Eu trabalho com a concepção
psicodinâmica da personalidade, e, sob esse ponto de vista, é
muito difícil se falar em ex-gay. O que pode acontecer é
uma renúncia voluntária, ou sob pressão, da atuação
sexual. O mesmo ocorre com heterossexuais que se engajam em uma religião
e renunciam à atuação da sexualidade, mas os desejos
heterossexuais permanecem lá. Eles vão lidando com isso porque
fizeram uma opção consciente e institucional dentro de um
movimento. Então, principalmente dentro de grupos religiosos, existem
depoimentos desses “ex-gays” e “ex-lésbicas”, mas isso não
significa que eles abandonaram essa condição. Mas também
existem depoimentos de pessoas que fracassaram nesse projeto, e isso não
é muito divulgado, apesar de chegar para nós, nos consultórios
e nas clínicas.
UnB
AGÊNCIA – Esse tipo de intervenção, feita principalmente
por grupos religiosos, não torna as coisas mais difíceis?
OLIVEIRA – Sim. Muita gente acredita,
por algum tempo, que deixou de ser gay, mas “dá com os burros n’água”.
E esse processo é muito doloroso, porque a expectativa que se cria
dentro da família e de seu grupo religioso, muitas vezes, não
é correspondida.
UnB AGÊNCIA – O maior entrave
para a aceitação da homossexualidade é a religião?
OLIVEIRA – Não. Um jovem
que se percebe homossexual e vive em uma família não-religiosa
pode ter mais dificuldades do que alguém que foi criado por uma
família religiosa. A religião não é o único
parâmetro de fundamentação do preconceito. Ela ajuda,
mas não é o único. Nós, brasileiros, vivemos
em uma sociedade extremamente hierárquica, que tem muita dificuldade
de conviver em uma horizontalidade, em uma igualdade. É uma sociedade
muito vertical, e isso cria uma intolerância com a diversidade. O
brasileiro já tem um formato limitado na cabeça: casamento,
concurso público, um projeto de vida, filhos (geralmente um casal),
e, quando algo foge a isso, ele se assusta. Essas pessoas têm uma
extrema intolerância para lidar com o diferente, não apenas
em relação à sexualidade. Qualquer diferença
no padrão é difícil de lidar. E, às vezes,
vão buscar argumentos para justificar a intolerância à
diferença em vários lugares, inclusive na religião.
Isso dá a impressão de que a religião é a principal
responsável pelos preconceitos, mas não é. Claro que
há pessoas que acreditam nos dogmas da sua religião e o usam
como argumentos fortes. Mas a maioria usa mais como argumentação.
É difícil contra-argumentar com Deus.
UnB AGÊNCIA – Por outro
lado, a religião, na maioria das vezes, também é negada
aos homossexuais.
OLIVEIRA – O homossexual se isola,
ele sai da igreja. Via de regra, é isso que acontece. A pessoa pode
até ter uma identificação com os princípios
religiosos, mas quando chega nessa questão, ela não pode
deixar de lado – com exceção daqueles que têm vocação,
que renunciam ao desejo. Então o gay se afasta e vai viver sua religiosidade
de outro jeito. Contudo, já existe uma igreja aqui em Brasília,
por exemplo, que aceita. Ela foi criada por homossexuais para que eles
pudessem viver sua religiosidade, por conta de uma particularidade da sua
sexualidade.
UnB AGÊNCIA – Um dos principais
argumentos daqueles que se opõem à adoção por
casais gays é que as crianças não receberão
uma boa educação em uma casa provida por dois pais ou duas
mães. O senhor concorda?
OLIVEIRA – Não. O que define
um bom pai e uma boa mãe não é a sua orientação
sexual. Antes de tudo, é preciso se perguntar qual é a educação
correta. Freud dizia que não importa a forma como você fizer,
vai dar sempre errado. A educação é idealizada. Nós
queremos que os filhos façam certas coisas, mas eles fazem de outra
forma. A educação por homossexuais é diferente, claro.
Só que esse mal-estar com a diferença é característico
do brasileiro. Em outros lugares, acha-se bom que as crianças convivam
com filhos de negros, asiáticos, gays. Mas aqui, não. Basta
olhar os livros escolares para ver que eles fazem menção
à família clássica e às alternativas desse
modelo. Isso é um problema, porque fica o ideal de pai, mãe,
casal de filhos e empregada, de preferência negra. Isso está
errado, é preciso mostrar o leque todo. Existem famílias
de um pai, de uma mãe, de pai e mãe, etc. O fato de ser criado
por um avô ou uma avó também é diferente. A
questão é que a diferença não é ruim.
UnB AGÊNCIA – Algumas das
pessoas contrárias à idéia da adoção
por homossexuais também argumentam que pais gays influenciariam
a orientação sexual de seus filhos.
OLIVEIRA – Os gays costumam responder
a essa idéia dizendo que a grande maioria dos homossexuais é
filho de pais heterossexuais. Essa é uma resposta clássica.
Além disso, os pais entram como modelo na conformação
sexual de uma pessoa, mas existem fatores genéticos e outras questões
conformadoras. Alguns países já fizeram pesquisas sobre o
assunto. De acordo com um estudo francês, a influência dos
pais nisso é insignificante. A maioria das crianças adotadas
por homossexuais nesses países é heterossexual. E, apesar
de tudo isso, eu questiono: e daí se for homossexual? Basta ele
ser um cidadão que respeita o direito dos outros. É preciso
saber acolher e instrumentalizar a criança. Não importa se
a pessoa é criada por um travesti, por um homossexual ou por um
pai adotivo. Eles têm de dar o peixe à criança e ensiná-la
a pescar.
UnB AGÊNCIA – A tecnologia
atual permite, a quem tem condições financeiras, mudar de
sexo por meio de operações e administração
de hormônios. Em decorrência disso, começaram a surgir
casos de transexuais gays. No caso de um homem, seria alguém que
nasceu com o sexo masculino, mudou para o feminino e passou a se relacionar
com mulheres. Essa possibilidade de mudar de sexo não aumenta a
confusão de quem tem dúvidas acerca de sua condição
sexual?
OLIVEIRA – Não. É
preciso diferenciar transexual de homossexual. O transexual tem a convicção
de que é do sexo oposto, e que seu corpo está errado. Então,
ele tenta adequar esse corpo o máximo possível à sua
identidade sexual – e esse é um processo muito doloroso e lento.
É possível ter a convicção de que você
é homem, independente da sua orientação sexual, que
pode se direcionar para homens, mulheres ou homens e mulheres. A homossexualidade
é apenas a orientação do desejo sexual. É possível
que um homem tenha a convicção de ser mulher, mude seu corpo
para isso, e, ao mesmo tempo, se interesse por uma mulher. Mas isso tudo
é muito complexo, porque mesmo o que é masculino e feminino
muda com o tempo.
UnB AGÊNCIA – Militantes
da causa gay defendem que alguns dos termos utilizados para se referir
aos homossexuais deveriam ser mudados, para que as referências e
eles fossem mais fiéis a sua condição. Por causa disso,
foram cunhados termos como homoafetivo ou homoerótico para substituir
“homossexual”. Esse tipo de iniciativa pode contribuir para a aceitação
dos gays?
OLIVEIRA – Pode. Essa iniciativa
já é um espelho de que existem diferentes olhares e nomeações
para um mesmo fenômeno. Mas, infelizmente, no Brasil, isso ocorre
apenas dentro da academia. Dentro das UnBs, Católicas e universidades
federais da vida. Se você perguntar para uma pessoa qualquer o que
ela acha do homoerotismo, ela não vai saber responder, porque essa
não é a linguagem que o povo fala. Mas, dentro da academia,
eu entendo que há um esforço para contemplar a diversidade
sexual. O termo mais problemático é “homossexualismo”. O
sufixo “ismo” é de doença, como em reumatismo. E a homossexualidade
caiu do código nacional de doenças há muitos anos.
Quanto aos outros termos propostos, mais gente vai ter acesso a eles com
a expansão da educação.
Roberto Menezes de Oliveira
é mestre e doutor em Psicologia pela Universidade de Brasília
(UnB), onde também se graduou. Atualmente, é professor da
Universidade Católica de Brasília (UCB). Publicou capítulos
em cinco livros e mais de 20 resumos em anais de congressos. Atua nas áreas
psicoterapia psicanalítica, avaliação psicológica,
métodos projetivos e estudos sobre a sexualidade e a parentalidade.