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Nesta edição:

- Eleições 2008: Um show... de decepções com o mundo gay
- "Minha voz será de um militante gay", diz candidato eleito em Minas 
- "Não tive apoio de alguns que se consideram reis do movimento", diz Leo Kret 
- Jean Wyllys comenta a eleição de Leo Kret e os gays
- News: as últimas notícias GLBT do Brasil e do mundo

 
Eleições 2008: Um show... de decepções com o mundo gay 

Por William Magalhães 

Mesmo com o final da noite de domingo tendo sido muito bom, não pude deixar de ficar desanimado depois de acordar segunda de manhã, correr pro computador e verificar o resultado das eleições municipais.

Em São Paulo, já não é mais novidade, nenhum candidato gay se elegeu. Mas o que me deixou mais triste não foi isso. Aliás, no Brasil inteiro só quatro candidatos LGBTs terem conquistado vagas nos legislativos de suas cidades é bem sintomático e serve para apontar alguns fatos que não podem deixar de ser levados em consideração  se queremos mesmo ser representados e conquistar direitos.

Que a classe gay é despolitizada, isso já se sabe e nem é mais novidade. A própria audiência deste site revela isso. Na noite de sexta-feira, publicamos entrevistas realizadas com três principais candidatos à prefeitura da cidade de São Paulo. No mesmo dia, uma notinha besta, sobre a troca de "carta de amor" entre o menino que faz o Harry Potter e outro ator, atingiu a marca de 5.000 pageviews. Enquanto isso, Marta, Alckmin e Soninha não passaram dos 600 e isso contando o final de semana inteiro na home.

Muitos foram os que não levaram a sério as candidaturas de drags. Esses, às vezes com um ponto de vista preconceituoso, talvez sejam aqueles que menos se informam e desconhecem a trajetória de militância de alguns candidatos. Vezes e vezes vi Salete participando, desmontada inclusive, de debates LGBT. Algumas delas foi antes mesmo de começar a trabalhar aqui. Em eventos e discussões que reuniram meia dúzia de gatos pingados lá estava a Salete contribuindo com seus pontos de vista.

É desesperador o fato de uma cidade com a maior Parada Gay do mundo não ter elegido um único candidato gay assumido, drag ou não. Há no mínimo um paradoxo entre a "consciência política" que as pessoas tanto dizem ter - aquele discurso "voto na idéia ou na proposta e não na sexualidade de um candidato" -, e o resultado que se viu nas urnas.

Se levam mesmo política a sério e por isso não votam em gay, independente de ser drag ou não, e independente das propostas ou não, como é que explicam o fato de Sérgio Mallandro* e Dinei* terem atingido vinte mil votos a mais que Salete Campari ou Marcos Fernandes? Se "corithianos e bobalhões" desperdiçam seus votos nessas caricatices, porque a bicha fervida não pode fazer a mesma coisa? Já que não vota com consciência e não se interessa por política - que, suponho, deve ser o perfil dos eleitores dos dois primeiros -, que vote em gay e volta pro mundinho de faz de conta da balada, do dark e do cinemão. Pelo menos está fazendo uma coisa boa, dando visibilidade pra comunidade e ajudando na ocupação de espaço político. É melhor que anular voto ou votar em branco, que acaba sendo uma atitude conivente com a situação do jeito que está.

Se acreditam nas idéias "boas" dos candidatos porque é que elegem a mesma bagaceira que está na política há anos? Só para pegar os mais votados e caricatos, o cantor Netinho de Paula recebeu 84 mil votos e figurou em terceiro lugar entre os dez mais votados. O Vereador Netinho, do PSDB, que é, de certa forma, aliado da causa LGBT em São Paulo, e que teve nota 9,4 na avaliação feita pela tucana Veja, ficou em nono lugar. Um candidato no mínimo interessante, mas não gay. Ou pelo não assumido, vai saber. E o Chalita, então? Foi secretário de Educação do Estado, não fez nada de muito relevante e ainda assim conseguiu ser o vereador mais votado no município.

E enquanto as bichas teimam em não votar em bichas, alguns espertos usam a religião como instrumento de manipulação de massas e elege católicos e evangélicos, fortalecendo suas bancadas reacionárias e fundamentalistas e dificultando a conquista dos direitos gays. Felizmente, Gabeira ter ido pro segundo turno derrotando Crivella nas urnas do Rio é um sinal de que nem tudo está perdido. Mas ainda assim, a gente está longe de uma situação favorável. Ah, quase ia me esquecendo. Um dos quatro gays eleitos é na verdade a travesti Léo Kret, em Salvador. E olha que pelo menos na teoria o nordeste é muito mais conservador e machista que São Paulo. Uma verdadeira vitória.

Um leitor hoje comentou a fala do Lula favorável a união civil. "Cadê os nossos direitos?", questionava ele. Estão lá, nos parcos 2 mil votos da Salete e do Marcos e nos 6 mil do Léo Áquilla, respondo. Estão na carta de amor do Harry Potter e nas entrevistas dos prefeituráveis pouco lidas por aqui. Talvez a gente tenha a política que mereça. E talvez merecemos ser também um país campeão no assassinato de homossexuais. Mas é de ruborizar que vinte anos depois da abertura política, nós gays ainda não soubemos utilizar da democracia para fazer valer nossa cidadania.

*Tudo bem que Dinei e Mallandro não se elegeram, mas que tiveram uma quantidade absurda pra patifaria que representa a campanha deles, ah isso tiveram.

(fonte: site A CAPA)
"Minha voz será de um militante gay", diz candidato eleito em Minas 

Por Marcelo Hailer 

Sander Simaglio, do Partido Verde, foi eleito vereador pela cidade mineira Alfenas, com 629 votos. Oriundo do Movimento Gay de Alfenas, em entrevista ao A Capa, Sander disse que essa eleição deixou claro que "gay não vota em gay". Afirmou também estar orgulhoso por ter sido eleito em uma cidade com mais de 65 mil habitantes. 

Em seu mandato, Sander diz que a principal bandeira a ser defendida será a dos direitos humanos e também irá lutar pela "preservação do meio ambiente, transporte público e acesso à saúde". Na entrevista, o vereador fala sobre a baixa eleição dos mandatos LGBTs e que, pelo fato de gay não votar em gay, "a campanha não pode ser focada somente na comunidade". 

Esperava se eleger? 
Sim. Todo candidato a um cargo eletivo e que faz campanha espera se eleger. 

Contou com o apoio do movimento de Alfenas?
O movimento homossexual organizado em Alfenas, o qual fundei a ONG MGA (Movimento Gay de Alfenas e Região Sul de Minas) me ajudou no que pôde. O atual presidente da instituição e dois de seus assessores doaram o sangue para a campanha. Estiveram ao meu lado os 90 dias de campanha eleitoral. Nesse período, vimos gays e lésbicas assumidos da cidade fazer campanha, adesivando seus carros com outros candidatos, inclusive um pastor de igreja evangélicas. Da votação que obtive, creio que não passou de 10% o número de votos gays, o que é uma lástima. Mais uma vez ficou provado que gay não vota em gay.

Como pensa em articular o seu mandato na Câmara Municipal de Alfenas?
Com muito trabalho, pensando no povo como um todo e dentro desse povo existe os LGBTs. Claro que minha voz será uma voz de um militante do movimento gay, mas não só isso. A cidade me elegeu e espera muito mais de mim. Ligam meu nome à coragem de ter me assumido. Ter me formado advogado, fundado a única ONG gay da região e ter sido audacioso em realizar numa cidade interiorana de Minas Gerais, com pouco mais de 65 mil habitantes, a Parada gay - que este ano chegou a 5ª edição -. Uma Parada com um discurso politizado, bem organizada, com expressivo público. Sou oposição ao prefeito eleito e minha responsabilidade se torna ainda maior, pois a prerrogativa do vereador de fiscalizar os atos do poder executivo fica mais intensa e estou pronto pra isso. Vou usar de criatividade, coragem, sensibilidade e audácia no meu mandato, o que faço no dia-a-dia dentro da ONG.

Já pensou em seu discurso para o dia da posse? Poderia adiantar algo para nossos leitores? 
Ainda não deu tempo, mas preciso fazer um discurso sensível e que deixe bem claro que foi eleito um gay porque vários outros candidatos esqueceram-se de fazer suas campanhas preocupados em discriminar a minha.

Pretende focar o seu mandato em quais questões? 
Direitos humanos, minha principal bandeira de luta. E, claro, procurar estudar bem os projetos apresentados pelo prefeito. Os [processos] de minha autoria tenho certeza que a maioria deles serão ligados ao social, apoio às ONGs da cidade, lutar pela preservação do meio ambiente, acesso da população à saúde, lazer, moradia, transporte público, educação... dentre outros. Tudo isso sem deixar de incluir os LGBTs em todos os casos. Por exemplo, apresentar emendas à lei orgânica do município onde iguala os benefícios de dependentes heterossexuais a dependentes homossexuais de servidores públicos do município. Minha luta começou visível quando propomos em 2000, para a Câmara, um projeto de lei que pune discriminação aos homossexuais no município. Conseguimos a aprovação por unanimidade e a sanção do prefeito à época, mas nada mais foi feito. Agora, como vereador, quero criar a comissão de direitos humanos dentro da Câmara, para ser um órgão de recebimento dessas denúncias de violação dos direitos humanos. Creio que o simples ato de uma das cadeiras da Câmara Municipal de Alfenas ser de um gay assumido, a comunidade LGBT ganha com isso, pois a cidade vai respeitar ainda mais nossos direitos sabendo que dentro da Câmara tem um representante de peso da classe. 

Dos 88 candidatos LGBTs, apenas 4 se elegeram. Por que acha que houve tão baixa eleição dessas candidaturas? 
Porque gay realmente não vota em gay e, por experiência própria, digo que o material de campanha não pode ser focado somente nessa comunidade. Pensando no meu caso, por exemplo, que a cidade é muito pequena. Não sei a realidade de ser candidato numa capital, por exemplo, onde o número de LGBTs assumidos é bem maior. Aqui na minha cidade todos conhecem minha atuação, sabe do importante papel da nossa ONG na luta por igualdade de direitos, na assistência a portadores de AIDS, na prevenção das DST. Por isso, resolvi mostrar em meu material de campanha que sou o Sander, aquele da ONG gay, aquele da Parada, porém, aquele advogado que tem propostas pra toda população e não só pra LGBTs. Vou usar o que faço no dia-a-dia na ONG na Câmara Municipal.

(fonte: site A CAPA)
"Não tive apoio de alguns que se consideram reis do movimento", diz Leo Kret 

Por Marcelo Hailer 

Que 95% dos candidatos gays não se elegeram, todo mundo já sabe. Porém, algumas candidaturas que entraram para as Câmaras de seus respectivos municípios podem dar início a fatos inéditos na história da política brasileira. É o que podemos dizer da eleição da transexual Leo Kret (PR-BA), em Salvador. Com 12.861 votos, ela e sua equipe garantiram vaga na Câmara Municipal na cidade baiana. 

Em uma rápida entrevista, Leo Kret diz que focará o seu mandato na questões ligadas aos jovens, população carente e na comunidade LGBT. Sobre a sua relação com a militância homossexual da Bahia, a vereadora diz que contou com o apoio dos mais jovens e que não teve o apoio de alguns que se consideram "os reis do movimento". Confira a seguir a entrevista com a transexual eleita.
 

Esperava se eleger? 
Sim, pois foi o povo que pediu, que esteve comigo durante a campanha. Como um aviso dos céus que estaria entre as mais votadas.

Você disse em entrevista que não teve apoio do movimento gay de Salvador. Em sua opinião, por que isso aconteceu? 
Tive o apoio da Comunidade LGBT sim. Não tive o apoio de alguns que se consideram os reis do movimento. Mas, da Comunidade LGBT tive sim, muitos votos. Assim como veio [voto] do povo pobre, dos jovens e dos artistas, além dos votos de protesto.

Já pensou em seu discurso para o dia da posse? Poderia adiantar algo para nossos leitores? 
Ainda estamos pensando, em equipe, mas vai ser uma síntese de minha vida, da construção de Leo Kret, do apoio do povo. 

Pretende focar o seu mandato em quais questões?
Focarei nas questões ligadas a jovens, artistas, população carente e comunidade LGBT. Darei prioridade ao que o povo pede, no coletivo, para suas localidades, quando seremos intermediadores entre o povo e o executivo.

Acredita que com o seu mandato poderá diminuir o preconceito na Câmara e no ambiente político? 
Claro que sim. Já há discussões na Câmara a respeito do banheiro que utilizarei, do nome no painel, etc. Agora sou uma representação de afeto e de direito, representando o povo que me elegeu. Portanto, devem respeitar estas questões e alterar os conceitos até então mantidos.

Dos 88 candidatos LGBTs, apenas 4 se elegeram. Por que acha que houve tão baixa eleição dessas candidaturas? 
Fui muito criticada por alguns que dizem que não sou legítima representante LGBT. Nesta eleição, isto serve de exemplo, pois as lideranças atuais e do passado devem pensar no que construíram e se devem ou não mudar estas estratégias. Se são tão bons em suas ONGs, mais parecidas com redutos ou fortalezas, talvez devessem sair destas e alcançar o povo. Não que toda a ONG seja igual, mas determinadas são trincheiras que não contribuem, como antes, com a redução da homofobia, pois o tempo passa e a vida muda. Mudem estes também.

(fonte: site A CAPA)

Jean Wyllys comenta a vitória de Leo Kret e os gays 

Jean Wyllys* 

Leo Kret venceu as eleições. O presidente do GGB, Marcelo Cerqueira, perdeu. Mais que lamentar os resultados, precisamos interpretá-los. As derrotas de Marcelo Cerqueira e dos candidatos engajados na luta pelos direitos civis de gays e lésbicas deve-se, por um lado, à homofobia internalizada, que impede a maioria homossexual de se identificar com outro homossexual. 

Por outro lado, essas derrotas se devem à tendência dos heterossexuais de escolher aquele que reforça o estereótipo da 'bicha louca'. O povo está pouco se importando se Leo Kret é drag queen, travesti, transformista ou transexual; para o povo, o que importa é que Leo Kret não deixa dúvida de que é 'viado'. 

O número de homossexuais que são assumidos publicamente, orgulhosos de sua orientação sexual e conscientes do coletivo que os reúne nos prazeres e/ou nos infortúnios é pequeno para eleger Marcelo Cerqueira. Embora cresça a quantidade de gays e lésbicas que está saindo do armário, a maior parte prefere ser integrado ao 'mundo normal' pela invisibilidade, pelo silêncio ou pela inexistência como gays e lésbicas. 

Leo Kret e sua plataforma 
'Aos meus amigos íntimos, digo que sou homossexual, mas, ao cunhado, ao chefe e aos colegas de trabalho, eu não digo nada para não sofrer injúria nem perder o respeito deles'. O engraçado - para não dizer trágico - é que este 'mundo normal' não quer saber desses gays e lésbicas que desejam a assimilação: ele costuma negá-los ou rechaçá-los, ora os ofendendo ora lhes negando oportunidades. Esses gays e lésbicas não votaram nem em Marcelo Cerqueira nem em Leo Kret. 

Os votos de Leo Kret são frutos da descrença de parte da população em relação aos políticos e do fascínio pelo entretenimento, sobretudo quando este inclui um personagem que desperta sentimento de atração-repulsa para com o que é exótico. E Leo Kret é entretenimento, Marcelo Cerqueira, não. Se Leo Kret tivesse prometido leis que tornariam a homofobia crime, permitindo que homossexuais se beijassem e se acariciassem em locais públicos; se tivesse prometido leis que assegurariam o casamento entre pessoas de mesmo sexo e/ou a adoção de crianças por pares homossexuais; ou um serviço de saúde para atender os travestis, 
será que ela seria eleita? Duvido! 

Sei que Leo Kret pode surpreender e defender os interesses da comunidade LGBT. Mas não sou ingênuo para esquecer que ela está submetida a uma coligação que inclui em seus quadros pastores evangélicos que rechaçam a homossexualidade. E caso decida não seguir a orientação do partido, dificilmente contará com apoio em outra eleição. 

Leo Kret abusa do exibicionismo e do 'humor bicha', o que leva alguns críticos a enxergá-la como 'subversiva' da ordem moral e sexual; contudo, o fato de ter se aliado a uma coligação conservadora mostra que Leo Kret, embora 'subversiva' sexualmente, é conservadora politicamente ou não entende de política. 

Marcelo Cerqueira, embora não seja 'subversivo' do ponto de vista sexual, defende políticas nada conservadoras. Assim, é preciso se perguntar: qual a subversão mais produtiva para a comunidade LGBT? Está claro que a discrição e sobriedade de Marcelo Cerqueira são mais subversivas que a 'fechação' de Leo Kret e podem desestabilizar muito mais as estratégias políticas daqueles que até toleram o exotismo da 'subversão' sexual, mas que detestam qualquer homossexual que defenda a igualdade de direitos. 

O desafio do movimento gay em Salvador é fazer da presença de Leo Kret na Câmara um contra discurso em favor da diversidade sexual ou um ponto de resistência que permita virar contra os homofóbicos a sua própria ironia: que seu próprio cuspe lhes caia nas caras. Mas isso só será feito se o movimento contar com a cumplicidade de Leo Kret. Será possível? 

*Jean Wyllys é colunista do jornal CORREIO (BA)


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Você
Sabia?

ue o comportamento homossexual é muito mais natural do que se pensa??

O famoso Dr. Kinsey, autor de "Sexual Behaviour of the Human Male" - estudo que tem fundamentado tudo o que se diz sobre sexualidade masculina desde meados do século passado - afirma em seu livro que o motivo pelo qual homofóbicos se opõe a homossexualidade é bem simples: o medo do crescimento da atividade homossexual. Conclui o Dr. Kinsey que com menos homofobia haveria muito mais homossexualidade. Ao se remover a pressão social que reprime a atração pelo mesmo sexo, o desejo homossexual cresceria e se espalharia naturalmente em larga escala. 
Por outro lado, a heterossexualidade parece estar em baixa: os vultosos recursos investidos pela sociedade e a mídia na promoção da heterossexualidade (vide comerciais de cervejas a bancos) só pode levar a crer que essa é uma orientação pouco atrativa, e que a população tem que ser constantemente bombardeada com os valores heterossexuais para poder se manter nesse rumo...

(Fonte: MiX Brasil)
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