PSI

por Fernando A. Pocahy
Não se deixe calar!

Pensar que as coisas que a gente sente, que nos dão 
tesão e possibilitam sensações e sentimentos prazerosos, nos fazendo sentir uma tremenda vontade de viver, correspondem a doença, pode ser muito complicado! Esse lance ou correlação homossexualidade-doença e trauma só fazem sentido em uma sociedade eminentemente preconceituosa e infeliz, fundamentada em pressupostos de normalidade que servem apenas para alguns e para a manutenção dos estabelecidos de uma certa ordem social. 

É claro que existem situações na vida da gente que vão nos compondo e que produzem sofrimento, mal estar e 
que podem até nos fazer viver deste ou daquele jeito. Mas isto é viver, é dispor-se às asperezas do que faz parte da vida: a gente sofre é justamente por não poder viver. Neste sentido não existe algo mais traumático que a ingerência social, por exemplo, sobre nossos desejos, nossos modos de ser e habitar nosso tempo, nossa vida. Uma sociedade que exclui e condena ao exílio existencial e à morte um sem número de seus cidadãos deve refletir com seriedade o que afinal é esta tal coisa chamada normalidade. Ou seja, nada justifica a violência de que são vítimas pessoas que se reconhecem como gays, lésbicas, travestis, transgêneros ou quaisquer outros modos de existência. 

E neste movimento, tampouco vale descuidar-se da grande incidência de suicídios ou outros modos de sofrimento psíquico que se produzem a partir desse modo de exclusão social.

Não há nada e ninguém que possua o poder de 
diminuir ou psicopatologizar práticas eróticas de mútuo 
consentimento (isto é, quando as pessoas que estão 
envolvidas o estão fazendo por livre vontade) ou 
relacionamentos conjugais entre pessoas do mesmo sexo biológico. 

Expressões de sexualidade ou erotismo que não se ‘enquadram’ no suposto padrão de relacionamentos em 
que vivemos, particularmente na sociedade brasileira dos dias atuais, devem ser respeitadas e são indicadores de saúde!!! E não há que se pensar que essas práticas devem ser toleradas. Devem ser, repito, respeitadas. 

Explico: se partirmos do pressuposto de que desejamos uma sociedade tolerante acabamos por reforçar a idéia de hierarquia social - de que o modo como vivo ou as coisas que sinto são inferiores e alguém irá me conceder, do seu magnânino lugar de sujeito normal e dotado de poder, alguma possibilidade de existência. 

Nada disto! Vale lembrar que qualquer maneira de amar, e eu acrescentaria entre tantas outras, de se manifestar, de transar, de inventar modos de relacionamento, de se divertir, de pensar, valem a pena, ou melhor, valem a vida e dignificam! Ops, alguém objetaria: mas assim a gente  está abrindo precedentes para os grupos de extermínio, por exemplo, que andam por aí elimiando sujeitos ‘homossexuais’, negros, pobres, índíos. 

Novamente, nada disto! O único precedente válido é o do respeito às diferenças, na medida em que estejam garantidas a inviolabilidade da existência do outro e  do seu modus vivendi.  E para isto, adeus aos argumentos da natureza das coisas. Nada é natural ou universal quando o assunto é ética, cultura e desejo humano. Somos todos responsáveis pelo mundo em que vivemos e que queremos, por uma vida melhor e digna de ser vivida.

    "A coragem está em aceitar escapar em vez 
    de viver quieta e hipocritamente em falsos 
    refúgios"  Gilles Deleuze e Félix Guattari (1972)
 

Fernando A Pocahy
Psicólogo


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