Desejo
Proibido:
Homossexualidade
nas Forças Armadas
Está
em discussão na Comissão de Constituição, Justiça
e de Redação da Câmara dos Deputados um projeto de
lei do deputado Alceste Almeida (PMDB/RR) propondo a exclusão da
palavra "homossexual" do artigo 235 do Código Penal Militar, que
pune com dois meses a um ano de detenção quem pratica "ato
libidinoso, homossexual ou não, em lugar sujeito a administração
militar".
O projeto já
passou pela Comissão de Relações Exteriores e Defesa
Nacional e não deve encontrar resistência. De acordo com a
assessoria de comunicação do Ministério da Defesa,
o ministro Geraldo Quintão, baseado em parecer favorável
do Exército, Marinha e Aeronáutica, indicou que não
tem nada contra o projeto.
Em sua justificativa,
o deputado observa que o artigo faz "uma alusão discriminatória
que atenta contra a garantia da igualdade perante a Lei, expressa no texto
constitucional". E acrescenta: "No momento em que países do mundo
inteiro asseguram aos homossexuais o acesso a qualquer tipo de atividade
profissional, inclusive nas fileiras das Forças Armadas, o Brasil
não pode situar-se na contra-mão da história."
Não
se sabe qual o interesse do deputado em aprovar o projeto. Mas
uma coisa é certa, ele não está exatamente advogando
pela causa gay. "Veja bem, o projeto não pode ser levado como uma
proposição a favor do homossexualismo, mas a favor da indiscriminação",
declarou ao Mix Brasil.
Mesmo que o
projeto venha a ser aprovado, transar em área sob administração
militar, seja dentro de uma Kombi ou no quartel, continua sendo crime.
Teoricamente, um militar flagrado com sua esposa em hotel de trânsito
também pode ser condenado com base no artigo 235. Na prática,
o artigo serve para coibir o sexo entre homens, com ou sem a palavra "homossexual"
no texto. A aprovação do projeto não representaria,
portanto, uma grande conquista para o movimento homossexual. Mas seria
uma vitória.
A homossexualidade
nas Forças Armadas é quase tabu no Brasil, mas a revisão
do artigo tem precedentes. Há cerca de cinco anos, quando o Ministério
da Justiça propôs uma revisão do Código Penal,
inclusive do Código Penal Militar, o Superior Tribunal Militar (STM)
chegou a aprovar a sugestão, feita pela Marinha, de excluir a palavra
"homossexual" do artigo 235. De acordo com a assessoria de comunicação
do STM, nem a Aeronáutica nem o Exército se pronunciaram
na ocasião em relação à proposta. A revisão
não aconteceu e não se falou mais no assunto.
Quem
fala demais corre o risco de sofrer retaliações. É
o caso do ex-militar Flavio Alves, que publicou em meados dos anos 90 o
livro "Toque de Silêncio" contando tudo o que sabe sobre o babado
na Marinha. Temeroso da repercussão do livro no meio militar, Alves
pediu asilo político nos EUA. O Departamento de Imigração
julgou que ele corria risco de vida e concedeu o pedido. O Código
Penal Militar não criminaliza a homossexualidade. Ou seja, se um
soldado se declarar homossexual, ele não vai preso, mas pode ser
submetido a um conselho de justificação (tribunal de honra)
e acabar expulso da corporação. No ano passado, o cabo Marcelo
Nogueira Clua passou por uma experiência semelhante depois de posar
nu para a revista "Homens". Na avaliação da Polícia
Militar de Minas Gerais, as fotos que o cabo fez para incrementar sua renda
foram uma ofensa à honra da corporação e incompatíveis
com a sua função, portanto ele foi expulso. Em caso de um
flagra em área sob administração militar, a coisa
fica ainda mais complicada, pois cai no tal artigo 235. O caso mais célebre
de condenação com base no artigo se deu há cerca de
dez anos, no Rio. Depois de uma briga entre soldados, o comando da Base
Aérea do Galeão recebeu em setembro de 1991 uma carta anônima
contendo denúncias de "orgias homossexuais" dentro da unidade. Foi
aberto um inquérito e os militares envolvidos chegaram a ser absolvidos
pelo conselho de sentença da 2ª Auditória da Aeronáutica
por falta de provas. Mas alguém apelou contra a sentença
e o STM acabou condenando, em janeiro de 1993, dois tenentes e 20 sargentos,
cabos e soldados da Aeronáutica. Na época o processo, o Grupo
de Emancipação Homossexual Atobá se mobilizou para
defender os acusados e anunciou que encaminharia ao Congresso, pelo deputado
Sidney de Miguel (PV-RJ) projeto
de lei proibindo a discriminação contra homossexuais nas
Forças Armadas. Ao ser indagado pelo jornal "Tribuna da Imprensa"
sobre o projeto o general Nilton Cerqueira, na época presidente
do Clube Militar, declarou: "A imaginação da gente não
permite enxergar a prática do homossexualismo dentro da instituição
militar. É um problema de concepção. A vida militar
não estabelece um convívio pacífico quanto a isso".
Ainda que pouco imaginativo, o general expressa uma opinião bastante
difundida nas Forças Armadas e na sociedade em geral. Para a maioria
das pessoas, é pouco provável que a homossexualidade venha
a ser tolerada nas instituições militares brasileiras nos
próximos 30 anos. Mas a partir do momento em que o assunto entra
em pauta, as previsões podem ser mais otimistas.
Quem diria
há 15 anos que gays seriam aceitos no exército britânico?
Pois a Grã-Bretanha, onde atos homossexuais de militares eram considerados
crimes graves, ingressou em janeiro na lista de países que aceitam
gays nas Forças Armadas, ao lado da Austrália, Bélgica,
Canadá, Dinamarca, Estônia, Finlândia, Holanda, Israel,
Nova Zelândia, Noruega e Suécia.
O Brasil ainda
vai entrar nessa lista. Tem agora que dar o primeiro passo.
MiX
Brasil
(Essa reportagem
foi ao ar no ano passado
no site MiX
Brasil - veja ainda uma divertida
historinha
militar clicando aqui!)
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