Clique para voltar
à página principal

 
Adolescentes vendem o corpo como mulher 
AUGUSTO PINHEIRO
Folha de São Paulo

É um coquetel molotov: preconceito, violência, maratona sexual e transformação radical do corpo. Esses são os ingredientes da vida de adolescentesque se travestem de mulher e vendem o corpo nas ruas de São Paulo. 
Largam o estudo cedo, alguns na 6 ou 8 série. Renata Verissímo, 12 anos (os nomes de batismo não estão aqui a pedido deles), é um dos poucos que terminou o 2 grau. Alguns frequentaram a escola como travestis e, em geral, foram ridicularizados por colegas e professores. Dizem que se prostituem pelo dinheiro "fácil" - ganham até R$ 4.000 por mês. Garantem que largarão essa vida depois de juntar muito dinheiro.

Mas, enquanto isso não acontece, enfrentam um dia-a-dia pesado. 

Atendem, em media, quatro clientes por dia. A maioria na faixa de 35 anos. Há dia em que fazem até 13 programas. "Esse foi o meu recorde" disse Ranata. Cobram de R$ 50 a R$ 70. Dizem que é comum, durante o trabalho, a polícia leva-los em um camburão até o pico do Jaraguá, um local ermo na zona noroeste de SP, de
madrugada, e deixá-los no meio do mato. No caminho, "os policiais xingam, espancam", diz um dos jovens travestis. Há também os clientes violentos: "Às vezes, o cara não quer pagar e bate na gente. Um já colocou um revólver pra mim" conta Renata. 

Carmita Adobo, psiquatra e coordenadora do Projeto Sexualidade do hospital das Clínicas, diz que essa situação é mais grave devido a pouca idade: "São indefesos, imaturos, tem menos preparo para a vida e mais tendências a se envolver com delinquência, drogas". A história de como viraram travestis é parecida: desde crianças já agiam como meninas. Milena Rios, 19, levava toalhe e ursinho para enfeitar a mesa da escola. Danielle Simpson, 17, vestia as roupas da mãe e brincava de casinha. "Há uma dificuldade de identidade sexual na fase da pré-puberdade, que é passageira", diz Carmita. "Mas, às vezes, é o prenúncio de um problema mais sério, um transtorno de identidade sexual em plena infância". As relações homossexuais ocorreram muito cedo- aos 10 anos para Milena, assim como no consumo de hormônio feminino. "Comecei a tomar aos 10 anos, por influência de um travesti mais velho", conta Danielle. "Depois que você se transforma, é incrível. Já parte para trabalhar nas ruas porque ninguém dá crédito para um travesti", diz Renata. 

Familía 
Diferentemente da maioria, Danielle teve a aceitação da familía. O pai, médico, até indicou o hormônio com menos efeitos colaterais. Já o pai da gaucha Bruna Dumont, expulsou-a de casa aos 16 anos. "Resolvi viajar o Brasil todo fazendo um programa. Fui ao Acre, Amapá, Rio de Janeiro etc" diz ela. 

No meio de 30, você engana 29 
"Eu sempre quis ser mulher. Na escola só brincava com mulher. Minha mãe tinha de ir toda semana conversar com minha professora. Sabe o que eu levava? Uma toalha rosa e um ursinho para enfeitar a mesa. A professora ficava apavorada. Falava para a minha mãe que eu deveria andar mais com menino. Nunca joguei futebol na minha vida. Na Educação Física eu tinha de usar bermuda, mas dobrava para ficar igual aos shortinhos das meninas. Cortava a camisa para ficar uma blusinha. Aos 10 anos, eu tive uma relação com meu vizinho de 16 anos. Era bem miudinha. Sempre tive o meu lado feminino. Foi boa a minha primeira experiência. Eu acho que estou nessa vida por causa dele. Ele me tratava como mulher, era tudo o que eu queria. Quando começei a tomar hormônio, aos 15 anos, parei de estudar. Não dava certo, todo dia um colega quer te pegar na saída. 
O que eu faço no tempo livre? Vou ao Shopping, ao Playcenter, jogar boliche, desço para o Litoral. Sempre saio muito discreta. No meio de 30, você engana 29" (Milena Rios,19) 

Consumo de hormônio aos 10 
"Quando eu era pequena, minha mãe desconfiava, até os familiares diziam: Esse menino é muito estranho. Eu era muito educada, fazia tudo em casa porque minha mãe trabalhava, eu me sentia a rainha do lar. Um dia, minha mãe veio conversar, e eu disse: 'O negócio é o seguinte, eu não gosto de mulher'. Ela me abraçou, chorou e disse que, se eu fosse feliz daquele jeito estava ótimo. Uma noite uma amiga e eu decidimos nos "montar". Ela tirou
minha sobracelha e passou batom. Fiquei uma menina. Os meninos na boite ficavam malucos: 'Nossa, parece uma mulher!. Aí mudou tudo. Aos 10 eu começei a me hormonizar por indicação de um travesti de 15 anos". (Danielle Simpson,17) 

Moradores de Campinas declaram guerra contra travestis e seus clientes 

Carla Silva e Eduardo Gregori

A temperatura subiu na noite do dia 4 de dezembro, no bairro do Bosque, em Campinas. No lugar dos clientes que vão em busca de programas com travestis, foi a vez dos moradores ocuparem as ruas do bairro. O estouro de fogos de artifício, as luzes dos apartamentos piscando e o som de dois mil apitos marcaram o protesto das famílias da região que lutam pela retirada dos homossexuais do bairro. Segundo os moradores, juntamente com os travestis vieram a violência, os homicídios, tráfico de drogas e o atentado violento ao pudor. Na noite de ontem, poucos quiseram falar, aproveitaram a ausência dos homossexuais para curtir, mesmo que por algumas horas as ruas do bairro.

"Pela primeira vez, em muito tempo, que eu não venho até a esquina da minha casa. Mesmo que seja para dar uma volta ou conversar com um vizinho. Tenho muito medo", disse a aposentada Célia Meireles, de 71 anos. Sensação semelhante a da aposentada, tinha uma professora, também moradora do bairro, mas que preferiu não ter o nome revelado. "Não tenho preconceito quanto à opção sexual deles. O que nos incomoda é a falta de respeito como somos tratados. Quantas vezes tive que ficar com o carro parado na rua, correndo o risco de ser assaltada, enquanto o travesti combinava o programa com o cliente. Sem contar os tiros que escutamos com freqüência, ainda corremos o risco de sermos vítimas de uma bala perdida, pois há muitos motoqueiros que passam atirando nos travestis a esmo", contou a professora.

A alegria dos moradores foi reverenciada pelas dezenas de motoristas que passavam pelas ruas do Bosque. As buzinas dos carros se misturavam com o som dos apitos. "Só colocando a boca no trombone que a gente consegue alguma coisa neste país", gritou o passageiro de um dos veículos.

Durante o protesto dos moradores, o clima chegou a ficar tenso por alguns minutos quando um grupo de adolescentes, moradores do bairro, se encontraram com um grupo de travestis na Avenida Aquidabã. A situação logo foi contornada e não houve confronto. Durante o protesto dos moradores e durante a permanecia da reportagem da Agência Anhangüera de Notícias no bairro nenhum viatura da Polícia circulou por aquela região.

Os moradores afirmam que o apitaço realizado ontem é apenas a primeira parte de uma série de mobilizações que serão feitas até que os travestis deixem o bairro.

Homossexuais exigem dignidade
A revolta dos travestis com os moradores do Bosque é unânime. Para eles, o principal problema é a maneira como são tratados. Sacos plásticos com urina, fezes e pedras são as armas usadas pelos moradores para inibir a presença dos travestis nas ruas do bairro. "Nos atiram pedras, abrem extintores de incêndio na nossa cara e jogam até bombas caseiras", conta Éder Souza, travesti de 21 anos, conhecido como Laura. Éder divide a rua com André Luis Santos, a Andréia, de 23 anos e que há 9 trabalha na região do Bosque. Apesar do clima de revolta e medo que ronda os travestis, Laura e Andréia afirmam que protestos como o apitaço e as passeatas são mais civilizados para ambos os lados. "As pessoas têm o direito de protestar, o que não é certo é a violência", comentam.

Os travestis acreditam que são alvo de agressões porque nem poder público e nem a sociedade civil estão interessadas em lhes oferecer empregos. "Eu não conheço travesti que tenha um emprego decente", afirma Pamela, um dos travestis mais antigos do Bosque. Segundo Pamela, o poder público precisa desenvolver uma política de inserção dos travestis no mercado de trabalho. "Só fica na rua quem não tem a chance de ter um trabalho. Você acha travesti quer ficar correndo perigo? A gente fica porque precisa". O travesti disse ainda que não encontra apoio nem mesmo nas ONGs homossexuais da cidade. "O telefone do Disque Defesa Homossexual está sempre ocupado e os grupos de gays não querem saber de nós, eles têm preconceito com os travestis".

Para responder ao apitaço, os travestis vão ficar em vigília até que uma comissão do bairro se reúna para falar com eles. "Nós estamos abertos ao diálogo, só que até agora ninguém veio falar conosco". disse Pamela. 

C R Ô N I C A S

Espíritos opostos

Não houve muita política na última entrega dos Oscar. Uma piada do Billy Crystal aludia aos privilégios que Bush teve durante o seu serviço militar, e o diretor do documentário premiado sobre Robert MacNamara e o envolvimento americano no Vietnã disse temer que o país estivesse entrando em outro buraco parecido, no Iraque. No ano passado as críticas a Bush e à guerra foram aplaudidas e vaiadas. Este ano não houve vaias.

A guerra do Iraque pode ser menos discutida, nas próximas eleições americanas, do que uma outra questão quente: casamento entre gays, sim ou não? É uma discussão engraçada, porque as posições de lado a lado tendem a ser invertidas, sem trocadilho. Os gays, no caso, são mais conservadores do que seus críticos, pois lutam para preservar e prestigiar uma instituição que parecia estar agonizando, vítima da nova moral sexual. Em muitos casos, o que os parceiros buscam é uma formalização legal da união para fins de sucessão etc., mas na maioria dos casos - imagino - o que querem é uma sagração matrimonial como a dos seus pais, com toda a sua carga de tradição e emoção. Véu, grinalda e gravatas prateadas opcionais.

As objeções religiosas a casamentos do mesmo sexo também são paradoxais. Em toda ligação homossexual - ou homoerótica, porque o mundo está cheio de ligações homossexuais que não sabem que são - existe um componente "feminino" e um componente "masculino", mesmo que imprecisamente definidos por características de personalidade e comportamento. E na medida em que personalidade e comportamento expressam o "espírito" de alguém, para usar outro termo indefinível, todas as uniões sexuais são entre "homem" e "mulher", mesmo quando os corpos são do mesmo gênero. O espírito é a pessoa, segundo o ensinamento religioso, não o seu corpo transitório. Mas nenhuma religião quer saber de espíritos de sexos opostos se amando e fazendo arranjos domésticos "normais". Sua crítica parece materialista e contraditória. Mas como não sou nem gay nem religioso, longe de mim esse cálice de confusão.

O mais curioso de tudo é a nova avidez das pessoas por parâmetros formais e cerimônia. Ouço dizer que foi por insistência dos alunos que as solenidades de formatura, que, misericordiosamente, se encaminhavam para uma depuração sensata e para a brevidade, voltaram a ser como eram antes, pesados e palavrosos rituais de passagem com beca e tudo. Agora, quando o casamento parecia a caminho de se tornar obsoleto, substituído pela coabitação sem nenhum significado maior, chegam os gays para acabar com essa pouca vergonha.

Luís Fernando Veríssimo é colunista do Globo e de vários outros jornais



Última esperança

Defendo a tese de que a única esperança para a sobrevivência do gênero masculino sobre a Terra é o travesti. Se não fosse o travesti, estaríamos condenados à extinção em 20, no máximo trinta anos. 

Já existem técnicas de reprodução humana em que um óvulo é fecundado com outro. Como o aperfeiçoamento destas técnicas permitirá um controle genético inalcançável por outros meios, o espermatozóide gradualmente perderá sua função no processo de procriação, e sua razão de ser. E quem fornece espermatozóides, com exclusividade, no mundo somos nós, machos. Estamos aqui para isto. A nossa função e razão de ser é esta. 

É verdade que, enquanto produzíamos os espermatozóides, fizemos outras coisas. Civilizações, sistemas filosóficos e jurídicos, pontes, represas, o teto da Capela Sistina, etc. (E desenvolvemos o processo suicida que dispensa o macho na reprodução da espécie.) Mas tudo isto foi atividade secundária. Nosso negócio principal, transmitido de pai para filho desde o ano zero, é espermatozóides. E somos um monopólio em vias de descobrir que não há mais mercado para o nosso produto. 

Não há o que fazer. Não podemos adaptar a planta para produzir outra coisa. Com o tempo, quando a própria Natureza se der conta de que somos um gênero supérfluo, começarão a nascer mais produtoras de óvulos do que homens. E cedo ou tarde as mulheres se perguntarão para que servem os poucos homens que sobrarem. As profissões tradicionalmente masculinas —- leão-de-chácara, estivador, chef, zagueiro central — ou serão automatizadas ou ocupadas por mulheres. Como parceiros sexuais, seremos facilmente substituíveis, também pela automatização ou por outras mulheres. O que impedirá as mulheres de começarem a eliminar os machos ao nascer, para evitar o estorvo e o custo da sua inutilidade? 

Os travestis. Eles serão os últimos depositários das graças femininas em desuso. Manterão vivos o coquetismo, a futilidade estabanada, a inocência provocadora e tudo que os homens de outra era chamavam de feminilidade — e que nenhuma mulher, ocupada em ser dona do mundo, conseguirá parodiar tão bem. E garantirão a sobrevivência do nosso sexo, nem que seja no cativeiro. 

Luís Fernando Veríssimo é colunista do Globo e de vários outros jornais

Outras reportagens:
Escola
Família
Amigos
Verão
Alistamento
Orgulho
Camisinha
Virgindade
Punheta
Religião


 
News
Anteriores
- Internet propicia encontros sexuais arriscados, diz pesquisa
- Maranhense quer levar famosos para partido gay brasileiro
- Encontro GLS no Shopping Santa Cruz, em SP, supera expectativas
- Ativistas criam "cartório gay" em Salvador e Curitiba
- Enrustidos" têm mais probabilidade de transmitir o HIV/Aids
- Vacina contra Aids mostra eficácia entre negros e asiáticos
- Bar em São Paulo discrimina casais gays; clientes reagem
- Ministro do STF mantém decisão que obriga INSS a pagar pensão a homossexuais
- Antropólogos americanos analisam linguagem gay
- Hospital na Índia "liberta" pênis embutido de garota de 18 anos

Principal | Tema | Fun | Colunas | News | Forum | Apoio | Equipe
© Copyright E-jovem.com 2001/2002. Todos os direitos reservados.
Ter seu nome e/ou imagem publicados neste site não indica necessariamente orientação sexual.
webmaster@e-jovem.com
Clique para o tema desse mêsClique e divirta-se!Clique e confira as novas colunasClique para visitar o forum de depoimentosClique e confira a reportagem do mêsClique para encontrar endereços e telefones úteis