Nesta semana:

* Sobre mim
* Minha vida na escola
* O Gay Virgem

Sobre mim

por Jonathan, 15 anos
do interior do Paraná

Oi galera, meu nome é Jonathan, moro no interior do Paraná, tenho 15 anos, no momento eu só estudo e levo uma vida normal de um garoto gay da minha idade.

Posso dizer que sou assumido pra quase pra todo mundo, mais menos para meus avós, tios e primos sabe, os que mais se chocam quando descobre “Hã, temos um gay na família!!!” Uma hora eles vão ficar sabendo ou eu mesmo vou ter que contar, não vai tem como adiar isso pra sempre, né?

Bom, hoje eu vou falar como eu contei pra minha mãe, eu digo só minha mãe porque meu pai já é falecido. Mais então lá vai:

Bom, eu estava em frente de casa, com meus dois amigos gays e quando eu entro para beber água, minha mãe começa meio que gritar:

— NÃO QUERO QUE VOCÊ FIQUE ANDANDO COM ESSE TIPO DE GENTE, O QUE OS OUTROS VÂO DIZER DE VOCÊ? ISSO QUE VOCÊ QUER PRA SUA VIDA?

Depois que ela disse isso, como isso já estava preso em minha garganta faz tempo eu começo a quase gritar também:

— SIM (com um pouco de medo), MÂE VOCÊ NUCA PERGUNTOU SE EU SOU FELIZ, SE TENHO ALGUMA DÚVIDA, NÂO CONSERSAMOS NADA DO TIPO.

— NÂO, ONTEM MESMO NÓS CONVERSAMOS!

— AQUILO, SEQUER PODE SE DIZER QUE FOI UMA CONVERSA!

Como ela estava perto do fogão, ela vai pra perto do armário da cozinha e diz:

— MAIS COMO JONATHAN? VOCÊ NÂO PODE SER, VOCÊ É MEU ÚNICO FILHO!

Sabe, com o pensamento “eu não vou ter herdeiros, netos”, tudo que os pais pensam na hora da “grande noticia”, como meu querido Kid Dudu diz em uma de suas coluna.

E como ela sempre vai a igreja naquele dia eu perguntei:

— VOCÊ NÃO VAI PRA IGREJA?

— NÃO! VAMOS CONVERSAR AGORA, VOCÊ NÃO DISSE QUE NÃO CONVERSAMOS? AGORA VAMOS CONVERSAR!

— AGORA EU NÃO QUERO CONVERSAR, A MELHOR COISA QUE VOCÊ TEM QUE FAZER AGORA É IR PRA IGREJA.

Ai eu voltei pra fora onde meus amigos estavam, e estavam só ouvindo.

Alguns momentos depois ela sai, e quando passa pela gente nem olha.

Quando ela volta, eu já estava no meu quarto pronto para dormir, ela entra e diz agora com calma:

—  Jonathan, você sabe que eu só quero seu bem, que as pessoas não te critiquem e que não se afastem de você. Desculpa!

Eu na cama fingindo que estava quase dormindo, num falo nada, depois ela sai do quarto, me sinto muito aliviado, muito feliz e surpreso com o jeito que minha mãe lidou com a situação.

Posso dizer que minha mãe aceitou numa boa, agora além de ela ser minha mãe é uma grande amiga, eu conto quase tudo pra ela, não da pra contar tudo né? hehehe.

Quero que vocês saibam que por mais que seja difícil ou que vocês tenham medo de que  aconteça o pior, conte a seus pais, explique seu lado, mostre que não é tudo aquilo o que os outros dizem.

Por mais que seja frustrante a eles, seus pais amam vocês uma hora ou outra eles vão acabar aceitando, pense nisso, é melhor contar do que reprimir. Vocês vão se sentir muito melhor depois.

Bom, essa foi minha primeira coluna, espero que vocês tenham gostado.
Me, mandem e-mail dizendo o que você acharam, comentários, sugestões, qualquer coisa...

BJAUM! Até a próxima, FUI...

Jonathan


 
Minha vida na escola

por Caio, 14 anos
de Salto (SP)

Desde a minha 3ª série, quando eu fui com uma calça desfiada na escola e pintei meu cabelo (tinha feito luzes), que acabou meu sossego. Os heterozinhos, começaram a me chamar de viadinho, bichinha, boiola, e dizer pra eu virar homem, mas ainda era muito cedo e era tudo tão complicado... De fato eu era diferente, eu era um menino que gostava de meninos.

Meu Deus aquilo para mim, era uma coisa que me assustava muito, e eu chorava todos os dias quando chegava da escola, pois eu era vítima já tão cedo da homofobia. Minha mãe quando fico sabendo da situação, ao invés de me ajudar, me incentivando a não ligar para aquelas coisas não, me disse para eu parar de usar roupas de viado que cessariam os comentários. Cara, minha mãe estava sendo pior que os da escola, uma homofóbica dentro de casa. 

Bem foram quase cinco anos de idas e vindas da diretoria, até que quando eu entrei na 8ª série do ensino fundamental, eu mudei para o período noturno da mesma escola, onde ninguém me chamava de viadinho. Até então eu ainda não havia assumido para mim mesmo minha identidade, mas quando mudei para noite, conheci o André, um menino muito lindo. Foi o que eu precisava para me assumir, me apaixonar por um amigo de sala. 

Eu e André fazíamos tudo juntos, mas eu nunca dizia a ele o que sentia. Eu fazia carinhos nele, e percebia que ele gostava, eu ficava massageando as costas dele, ficava meio que de mão dadas por debaixo das carteiras, até que um dia ele veio em casa e nos beijamos.Cara eu tava acabando de assumir minha identidade! Mas as coisas não foram legais dali pra frente. À noite, na escola, ele nem se sentou comigo, se distanciou, e nunca mais falamos no assunto. Foi quando voltei para o inferno.

Mudei, pro período, diurno novamente, pois não agüentava ver ali, meu grande amor e ficar calado. Bem, já no 1º dia, de aula, os meninos começaram a dizem que não admitiriam um gay na sala, e eu cansado de sofrer calado comecei a responder a altura, sempre com muita educação, para não perder a razão. Certo dia, um heterozinho veio na minha carteira e esfregou na minha cara um pôster de mulher pelada e disse:

- Vira homem!

Eu respondi:

- Deus me livre, e outra menino, se eu quiser eu faço sexo de verdade, não preciso passar horas como você, no banheiro com uma foto de uma mulher que você nem se quer sabe quem é.

As meninas na sala, todas, riram da cara dele, e ele disse pra eu ficar esperto (tipo de heterozinho machão). No intervalo, ele veio, e perguntou porque eu fiz aquilo, e não deixou eu responder e disse que viado merece apanhar, eu disse:

- Bate, mais bate com força, que é pra eu morrer, pois se eu levantar daqui, eu faço da sua vida um inferno.

E o mais engraçado é que o inspetor de alunos estava do lado, e não fez nada, eu levei chutes, um murro na boca do qual sangrou, e um soco no ombro que ficou marcado.

Eu imediatamente subi na diretoria, e disse que eu estava indo embora, pois eu não iria agüentar aquilo, dentro do meu ambiente de estudos, com um inspetor do lado que me viu apanhar e nada fez. Foi quando uma professora entrou na sala e disse, para eu abrir um boletim de ocorrência, e foi o que eu fiz. Mas antes de sair da escola eu disse que se, aquilo voltasse a acontecer eu processaria a escola, por negligência, pois aquilo era desumano, onde já se viu, uma pessoa apanhar só porque é gay. 

A diretora chamou os pais do menino e me liberou, eu desci imediatamente com minha mãe na delegacia, e fiz corpo de delito, mas minha mãe não me deixou registrar queixa como preconceito, pois ela disse que isto era uma vergonha. Eu fiquei abismado com aquilo, ela disse que se eu registrasse como preconceito, ela não assinaria, e o B.O. não teria efeito nenhum, mas mesmo assim eu contei tudinho, o que vocês já leram e a escrivã registrou a queixa, depois disso fui mudado de sala, onde os outros meninos, nunca mexeram comigo, pois tinham medo deu processar. 

Uma vez tínhamos que fazer um trabalho sobre um tema atual e fazer uma palestra de 30 minutos, mas eu falei 60 minutos sobre homofobia, ninguém na sala nem piscava ao me ver falar sobre a homofobia, e o que os gays e lésbicas enfrentam só porque querem o direito de amar, de serem felizes, alguns ate choraram, ao em ver falar o quão difícil é ser diferente, em um mundo de iguais, no fim da palestra eu disse:

- Mas hoje, encontrei minha verdadeira identidade, abri asas e agora deixei de ser um patinho feio. Bati asas e voei! 

Fui aplaudido em pé, por todos, algum tempo depois, alguns meninos da classe me viram beijar um menino que eu tava ficando num clube de heteros aqui na cidade, nós estávamos na fumaça e achávamos que não dava para ver, e envolvidos pelas músicas nos beijamos por horas, mas quando cheguei na segunda feira na escola, eu ouvi uma musiquinha assim:

- È na fumaça que é bom é na fumaça que é bom.

Cara eu gelei na hora, daí na hora da saída um dos meninos veio me perguntar se era verdade que eu tava beijando um loirinho na boate, e eu disse que era, ele disse pra eu não me preocupar, pois só quatro sabiam e se um dos quatro contassem iria apanhar dos outros três, meu eu quase beijei o menino de felicidade, pois eu estava vendo que minha palestra sobre a homofobia havia feito efeito.

Em 2005, comecei estudar em uma escola nova, de centro, depois de oito anos estudando na mesma escola. Lá me encontrei com minha amiga Pri, que é lésbica, e um menino, o Lucas, que é gay assumido. Nós três sempre ouvíamos piadinhas sem graças - um dia disseram até que a escola tava virando parada gay, pois o Ley (outro garoto gay asumido) mudou pra lá também, e eu cansado de ouvir, e não fazer nada. Resolvi imprimir 10 cópias da lei 10.948 de 05-11-2001. Imprimi em várias cores preto, roxo, rosa, e preguei em todos os murais da escola. Ao saírem pro intervalo, os alunos heterozinhos, escreveram em uma delas By Caio Viado, e eu escrevei debaixo, viado não, gay com orgulho.

No outro dia fui chamado na sala da Diretora, e ela me perguntou se eu estava sofrendo algum tipo de homofobia da parte de professores, alunos ou funcionários. Eu disse que sim, os alunos estavam sendo preconceituosos comigo e meus amigos gays e ela disse que a lei permaneceria ali até que os alunos se conscientizassem. No outro dia, ao lado das que eu preguei haviam outras leis, como a de desacatar funcionário publico, a racial, e o disque-denúncia. 

Foi uma iniciativa que deu certo pois os alunos, hoje, são a minoria que fazem alguma  piadinha, mas mesmo estes ficam sem graça depois de fazer piadinhas e receber respostas como, homofobia é crime sabia, ou sou gay com orgulho ou você sabia que você pode ser preso com isso ou você esta com inveja do meu corpo né... Respostas como estas sempre calam os homofóbicos.

E assim estou na escola, livre de homofobia. Parece que a diretoria de ensino lançou um projeto agora pra depois das férias, para falar sobre o preconceito. Se der certo mesmo, eu vou entrar com a cara e a coragem, para calar os homofóbicos de lá de uma vez por todas.

Pois eu sou gay, tenho orgulho, e não desisto nunca. Não sou um patinho feio, sou um lindo cisne branco, que bateu asas e voou e espero encontrar vocês neste meu vôo contra a homofobia na escola e na vida, pois ser gay não é uma vergonha. Somos seres humanos e temos direito e deveres, assim como todos.

Espero que minhas experiências possam ajudar vocês.

Caio

[NOTA: E o Caio fez tudo isso sozinho, com a cara e a coragrem, numa cidade conservadora do interior de SP. Imaginem o QUANTO podemos fazer todos juntos, por todo o Brasil?? É para isso que o E-jovem criou o Programa Escola Jovem. Ajude a tornar esse plano uma realidade! ~ Deco]




Mais papos sobre nós:

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- Minha vida na escola
- O Gay Virgem
- Meu primeiro beijo
- Segunda coluna - Religião
- Primeira coluna
- Colunas antigas do Garotinho

Leia histórias de meninos gays virgens (e alguns não mais...)


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