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Valeu
a espera!
![]() Momento histórico para o movimento homossexual internacional. Pela primeira vez em toda a história mundial, um presidente faz a abertura oficial de um evento em defesa da homossexualidade. Lula, que participou da 1ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transsexuais (GLBT), disse que o Brasil precisa de “um momento de reparação”. A conferência, iniciada em 5 de junho de 2008, foi convocada por decreto presidencial do próprio Lula. Acompanhado de seis ministros e de representantes de 14 países, Lula pediu para que todos os preconceituosos “arejem a cabeça e despoluam-na”. Ele surpreendeu ao manifestar apoio total ao movimento homossexual e dizendo “que fará o possível para que a criminalização da homofobia e a união civil sejam aprovadas”. O presidente defendeu o fim de toda a oposição ao comportamento homossexual e afirmou que a permanência da discriminação sexual “talvez seja a doença mais perversa impregnada na cabeça do ser humano”.
Vanuchi terminou seu discurso dando três recomendações ao movimento gay presente: Não se perder em disputas internas, entender que os adversários são pessoas presas a tabus usando mais estratégias de convencimento do que de enfrentamento e entender que a luta homossexual se entende como parte de outras lutas de direitos humanos como a de crianças, deficientes, negros e idosos. Quando chegou a vez do Ministro da Saúde José Gomes Temporão falar, ele creditou ao ativismo GLBT a união da luta contra a AIDS à defesa dos direitos homossexuais. Ele, que há bastante tempo vem se manifestando a favor da legalização do aborto, anunciou que até o final do mês o SUS passará a fazer operações de mudança de sexo. Em seu discurso, Toni Reis, presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros), apresentou proposta para a criação de um estatuto para os homossexuais, seguindo o modelo do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ele também pediu a aprovação da união civil de pessoas do mesmo sexo e a criminalização da homofobia. O pedido de Toni foi aplaudido por Lula. "Fazemos qualquer negócio pela aprovação dos direitos GLBT", disse Toni. Ao final do discurso de Lula, uma menina de 4 anos subiu no colo do presidente e no microfone ambos clamaram: “Brasil Sem Homofobia! Brasil Sem Homofobia!”. O presidente do E-JOVEM, Deco Ribeiro, foi um dos 600 delegados que participaram da conferência e diz abaixo quais foram suas impressões: Como foi a Conferência? Quais foram as principais propostas votadas? Foram mais de 1.000 propostas apresentadas. Destas, com certeza mais de 600 foram aprovadas e serão levadas ao presidente Lula. Muitas propostas importantes foram aprovadas, como as que exigiam apoio do governo ao Projeto de Criminalização da Homofobia e à União Civil de homossexuais. Mas, para mim e para o E-JOVEM, as propostas mais importantes foram as da área de Educação, nossa prioridade. Então eu diria que foram todas as de Educação e uma de Comunicação que dizia "Que sejam realizadas, com a participação de crianças e adolescentes GLBT, campanhas de prevençãoàs DST/AIDS, de combate à homofobia e contra a exploração sexual". Será a comprovação de que a juventude GLBT existe e tem direitos. A visiblidade dos GLBT ficou ainda maior depois do evento? Ah, sem dúvida. Lula foi o primeiro presidente do MUNDO a participar de uma conferência gay. Foi lá, discursou e segurou a bandeira. Chorou e fez chorar. Todos os grandes veículos divulgaram - e isso mostrou que não somos só Parada. E lembra daquelas 600 propostas lá de cima? Quando elas todas forem implantadas, vai ser impossível fingir que gays vivem à margem da sociedade. Nós vivemos entre todos. Quais serão as consequencias que isso trará para os jovens GLBT? Como já falei: visibilidade. Com o governo, as escolas e a sociedade sabendo e aceitando que gays jovens existem, fica muito mais fácil pensar no futuro desses garotos e garotas, protegê-los, educá-los, amá-los - em vez de tratá-los como aberrações. A Conferência Nacional GLBT foi positiva para a juventude? Foi e meio que não foi. Foi porque fizemos um acordo logo no início da conferência para que todas as propostas que contivessem algum tipo de recorte (étnico racial ou de gênero) também contemplasse o recorte geracional, ou seja, fossem voltadas também para os idosos e a juventude GLBT. Também aprovamos várias propostas específicas para a juventude GLBT, sem contar as de Educação, que atingem necessariamente este público. Por outro lado, meio que não foi porque foi possível perceber como é difícil fazer política pública para adolescentes e jovens GLBT. Praticamente TODAS as propostas que continham a palavra "adolescente" ou "criança e adolescente" vieram dos grupos de trabalho com recomendação de supressão e tiveram que ser discutidas na plenária final (as propostas que não fossem contestadas, eram automaticamente aprovadas). Tivemos que ganhar no grito e no voto, uma por uma. Perdemos algumas. E dava medo ver as veias saltadas, os ânimos exaltados de quem achava que a mera aprovação de uma proposta que enfocasse a juventude GLBT seria como se o movimento inteiro assinasse um atestado de pedofilia. Muita ignorância, muito medo, irracional. Muita hebifobia. E, vice-versa, a Conferência de Juventude foi positiva para os GLBTs? Foi ótima. Primeiro que a Conferência de Juventude entendeu a necessidade de haver um grupo de trabalho específico de juventude GLBT (o que na GLBT não ocorreu). Segundo que, por ser uma conferência jovem, a hebifobia já estava de cara descartada. Nossa única preocupação seria a homofobia - e em momento algum sentimos preconceito. Discutimos com a juventude negra (que foi a grande responsável por aprovarmos nossas propostas na planária final), com a juventude partidária, com as de religiões. Fizemos até uma mini-parada gay dentro do espaço da Convenção. Todos queriam conversar conosco, saber as nossas bandeiras, nos dar apoio. Um de nossas propostas, de segurança pública, foi votada entre as 21 prioridades de toda a juventude nacional. Ainda bem que é essa geração que vai fazer a mudança!
Povo, aqui está o link das propostas que foram APROVADAS na Conferência Nacional GLBT. Todas as 559. http://www.conferencianacionalglbt.com.br/view/templates/arquivos/ANAIS.pdf Atentem para o título do arquivo: ANAIS.pdf... :D Agora temos 2 anos pra colocar isso em prática - ou melhor, o Governo tem. E nós temos 2 anos pra pressionar o Governo a transformar cada uma dessas 559 propostas em realidade, já que o Governo também foi parte desse encontro e assinou embaixo de cada uma. Adotem essas propostas em seus E-grupos, sites, blogs, listas e vamos lá, mãos à obra! Deco=]
A 1ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais decidiu padronizar a nomenclatura usada pelos movimentos sociais e pelo governo, junto com o padrão usado no resto do mundo: em lugar de GLBT, a sigla passa a ser LGBT. Para o grupo, a mudança significa dar maior destaque para as reivindicações das mulheres lésbicas. Era uma demanda antiga do movimento das lésbicas organizadas. Ou seja, agora a orientação é usarmos a sigla sempre com quatro letras, com o L na frente do G. O que acham disso? Como a gente não discutiu esse assunto em profundidade aqui no grupo, não fiz grandes comentários sobre isso lá na Conferência - mas seria interessante ver o que a Juventude pensa a respeito. A meu ver, creio que essa "mudança" não enterrou a discussão, pelo contrário: o que era uma disputa meio velada, uma guerra fria, agora está fervendo!! Na Conferência, Travestis e Trans questionavam aos gritos o equivocado argumento lésbico de que "as lésbicas são as que mais sofrem, por serem mulheres e homossexuais", daí o L na frente do G. Bissexuais se sentiam também excluídos e precisavam lembrar às lésbicas que também haviam mulheres bis - que eram discriminadas dentro e fora da comunidade GLBT. O silêncio da maioria dos gays foi o que mais (não) me surpreendeu - mas alguns saíram empunhando cartazes de "Na minha cidade continuaremos usando GLBT" e entoavam gritos de guerra de "GBT! GBT!", a sigla sem o L. Aqui e ali eu ouvia "E os Transgêneros, que raramente são lembrados na sigla? E os Intersex, que nunca são?" Ou seja, a discussão apenas começou. Como disse Lula, na abertura da Conferência, que Deus nos abençoe a todos. Abaixo, deixo
pra vocês uma fábula que eu escrevi antes da Conferência
e que parecia adivinhar toda essa discussão...
Uma fábula de Deco Ribeiro Era uma vez um mundo Preto e Branco. Que tinha horror ao que era diferente. Como o Azul, o Vermelho e o Amarelo. “Azulão!”, diziam os Brancos. “Vermelhado!”, xingavam os Pretos. “Amarelento!”, riam ambos. Era muito preconceito. Por muitos anos o Azul, o Vermelho e o Amarelo sofreram em silêncio. Foram perseguidos e humilhados. Mortos em fogueiras e campos de concentração. Até que uma revolta num bar mostrou pela primeira vez que Azuis, Vermelhos e Amarelos podiam se unir contra o preconceito Branco e Preto. E assim foi. Surgiu o Movimento AVA – Azul, Vermelho e Amarelo. E o Movimento cresceu, lutando pelo direito à diferença, mostrando que Azul não era pecado, Vermelho não era sujo, Amarelo não era doença. Um movimento que tinha tudo pra dar certo, pois lutava contra a injustiça e por um tratamento equalitário. No combate à avafobia. Até os Verdes aparecerem. Bom, o Verde sempre existira. Mas todos os consideravam uma mistura de Azul com Amarelo. Com certeza ele se encaixaria em um dos dois segmentos e se contentaria com isso. Mas não. O Verde decidiu que o Azul via as coisas muito azuis e o Amarelo, muito amarelas. O Verde tinha uma visão diferente do problema – mais verde, obviamente. E sofria um outro tipo de preconceito. Era preciso que o Movimento se chamasse AVAV – Azul, Vermelho, Amarelo e Verde. E assim foi. Com o empoderamento do Verde, logo surgiram mais questionamentos. E o Laranja? Era um Vermelho-amarelado ou um Amarelo-avermelhado? Ou era simplesmente Laranja? E o Roxo? Houve choro e ranger de dentes. Era inadmissível um Movimento que não contemplasse esses dois segmentos, se o Verde era contemplado. O Movimento deveria se chamar AVAVLR – Azul, Vermelho, Amarelo, Verde, Laranja e Roxo. E assim foi. Mas não sem protestos. Afinal eram poucos os Laranjas e Roxos. Justificaria incluí-los na sigla? Uns adotaram o AVAVLR. Outros maniveram-se fiéis ao AVAV. E outros já propunham uma volta ao bom e velho AVA. “Pera lá,” disse o Vermelho. “Porque o Azul na frente? O Vermelho está no nível mais baixo do espectro visível e sempre foi oprimido pelos outros! O Movimento deve se chamar VAAV e não AVAV.” Houve chiadeira dos Azuis. Os Verdes, por outro lado, já renunciavam ao combate à avafobia e começava a citar a verdefobia em seus manifestos. Logo seguiram-se a laranjofobia e a roxofobia. Multiplicaram-se os eventos AVAV, as paradas de orgulho VAAV, as caminhadas Verdes, os festivais de cinema AVAVLR, os meses da diversidade VAAVLR... O Dia Nacional de Combate à Avafobia, uma das vitórias do Movimento, era grafado pelos mais politicamente corretos de Dia Nacional de Combate à Avafobia, Verdefobia, Laranjofobia e Roxofobia. Ninguém entendia mais nada. A imprensa, alheia a essas brigas internas, chama tudo de AVA e pronto, apesar dos protestos. Surgiram outras siglas, baseadas em outras línguas: RGB, CMYK. Foi quando o Azul-Claro começou a exigir um espaço próprio dentro do movimento. Afinal, os Azuis mais escuros tinham uma clara clarofobia e nunca pensavam nos tons mais suaves do espectro. Foi a gota d'água.. O Movimento, que fora tão bem-sucedido no passado, começava a emperrar. Perdia-se um tempo precioso em discussões de segmentos e não no combate à avafobia. Reuniões sérias, de proposição de soluções a desafios importantes, empacavam na grafia da carta-manifesto: o título seria “Avafobia Mata!” ou “Avafobia, Verdefobia, Laranjofobia e Roxofobia Matam!”?? A sociedade em geral via a todos como aberrações. “É tudo Vermelhado mesmo!” Nem os próprios AVAVLR, os não-militantes, sabiam o que significava a sigla ou qual sigla era a mais em voga da vez. Potenciais aliados Brancos e Pretos eram constantemente corrigidos – às vezes, e deselegantemente, em público – e não entendiam o porquê. Não estavam lutando todos pela diversidade? Por que confundir tanto? Era preciso fazer alguma coisa. Foi chamado um grande Encontro pelo presidente Preto (o primeiro, depois de mais de um século de presidentes Brancos), exclusivamente para se discutir a questão AVAVLR. O presidente sabia das coisas, tendo vindo de um passado de militância. “Companheiros,” discursou o presidente na abertura do evento, “É preciso sim reconhecer e respeitar as diferenças de cada segmento. Mas é fundamental que vocês, enquanto Movimento, encontrem e se concentrem naquilo que os une, não no que os diferencia.” Isso ficou na cabeça de muita gente. E enquanto alguns continuavam a discutir as letrinhas ou quantas fobias diferentes cabem numa frase, esses outros passaram a buscar a tão sonhada união. Uma unidade na diversidade. “O que somos TODOS?", "O que nos distingue da sociedade?”, "Temos algo em comum?", "Podemos expressar isso numa só palavra?", pensavam. A resposta veio como um raio. Não ficou registrado quem foi o primeiro a dizer a frase em voz alta, mas ela logo corria o Movimento. “Somos CORES.” Vermelho é uma COR. Azul é uma COR. Amarelo, Verde, Laranja, Roxo, Azul-Claro... CORES. O Movimento passou a se chamar MOVIMENTO COLORIDO. E, como símbolo, foi escolhida a bandeira do arco-íris. A União entre as CORES, um desejo antigo do Movimento, foi finalmente aprovada pelo restante da sociedade. Assim como a Criminalização da Corfobia. Em poucas gerações, Brancos e Pretos já aceitavam as CORES como parte de si. E viveram
todos felizes para sempre.
“O que somos TODOS?", "O que nos distingue da sociedade?”, "Temos algo em comum?", "Podemos expressar isso numa só palavra?" Será que um dia seremos simplesmente CORES? Ou estamos fadados a ser eternamente um Movimento que não ousa (porque não sabe) dizer seu nome? Deco Ribeiro Outros temas: Arrasamos
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